quarta-feira, 25 de junho de 2014

POP: A falsa boa ideia

Se os protocolos são perfeitos, porque não são seguidos?
Quando damos uma olhada nas páginas Facebook das diferentes entidades Brasileiras ligadas ao socorro, e que nós lemos os comentários sobre os vídeos mostrando ações incorretas, vemos que não há praticamente nenhum argumento nem as pessoas explicam sua opinião: algumas citam Leis, Normas, Protocolos e POPs (procedimentos operacionais padrão). A única razão que esses "comentaristas" encontram para os erros é que as normas, sacrossantas, não foram seguidas. E no entanto, se nos dizem por um lado que os protocolos são muito simples e perfeitos, por que é que não são seguidos?


Um pouco de história...
A fim de compreender o uso dos POPs (SOPs, nos EUA) e dos protocolos como um todo, é interessante entender de onde eles vêm e por que um bom número de países Europeus não os tem (ou pelo menos, não tanto como nos EUA e Brasil).
De um modo geral, a organização de socorro é influenciada pelo comportamento dos exércitos, ou seja, grupos grandes e organizados.
Como o Brasil não teve conflitos grandes no seu território, sua organização não nasceu da experiência, mas sim da influência, Americana principalmente. Visto que os Estados Unidos são um país jovem, as respostas históricas devem ser buscadas do lado da Europa. Os grandes conflitos Europeus organizados começaram com a Revolução Francesa, seguida das Guerras Napoleônicas. A organização militar mudou totalmente e os serviços de socorro utilizaram plenamente as lições da guerra. É por isso que os Sapeurs-Pompiers (Sapadores-Bombeiros) Franceses têm uma organização derivada das unidades de Engenharia (Génie) do Exército.
Depois de serem derrotados por Napoleão em Jena (1806), os Prussianos começaram a analisar os princípios militares Franceses. Foi assim que eles criaram um grupo de análise e de comando chamado "General Staff", concretizado em 1870. O "General Staff" foi adotado em seguida pelos Americanos, que o utilizaram para criar seu National Response Framework (sistema nacional de resposta a emergências), contendo as diretivas sobre o socorro a pessoas e combate a incêndio, ligados ao NIMS (Sistema Nacional de Gerenciamento de Incidentes) e ICS (Sistema de Comando de Incidentes).

Da guerra
A obra de Clauswitz inaugurou o estudo dos combates e definiu os conceitos de centro de gravidade, usado até hoje pelos EUA
A metodologia militar foi descrita pela primeira vez na obra intitulada "Da Guerra" (Vom Kriege), escrita por Carl Von Clauswitz e editada em 1832. Precedentes, como "A Arte da Guerra", de Sun Tzu (entre outras) são interessantes, mas bem menos do que a obra de Clauswitz, que analisa o próprio cerne dos combates. Sun Tzu é mais político. Um grande princípio foi estabelecido por Clauswitz: o centro de gravidade. Este princípio consiste em dizer que não basta matar inimigos ou lutar, é preciso ainda que isso seja feito com um objetivo, definido previamente. É preciso procurar o ponto mais sensível do inimigo e dirigir seu esforço contra esse ponto. O centro de gravidade pode ser o posto de comando, as linhas de transmissão, pontes, etc... É esse ponto cuja definição regulamentar é "fonte de potência material ou imaterial do adversário, de onde ele tira sua liberdade de ação, sua força física e sua vontade de combater."
Nos Estados Unidos, esse conceito encontrou um eco extremamente favorável. De fato, uma vez que o centro de gravidade tenha sido encontrado, basta investir todo o seu esforço contra ele. Militarmente falando, os EUA são o país do material e dos grandes equipamentos. Se são necessários 10 aviões, a gente coloca 20, se são necessários 50 a gente coloca 100, etc... No socorro, encontramos exatamente esse princípio. Onde num país da Europa vai-se empenhar um caminhão de combate a incêndio pequeno, os Americanos empenham 4 ou 5 caminhões enormes, entupidos de material.

A partir do momento em que foi determinado o centro de gravidade, o resto deve, teoricamente, encadear-se sem problemas: o objetivo foi designado, o material é muito, os recursos humanos são enormes. Esta acumulação de equipamento leva a uma acumulação de técnicas, perfeitamente descritas. E para encadear os gestos? Nada mais simples do que fazer listas, os famosos "protocolos" / POP" que basta seguir.

Acidentes, de novo...
Nos Estados Unidos, a cada acidente com morte de um bombeiro - que eles chamam de Firefighter, "guerreiro do fogo", é feita uma investigação, que em seguida é publicada. Essas investigações estão disponíveis no sítio da United States Fire Administration (www.usfa.fema.gov). Há poucos anos, logo após a publicação do relatório sobre o acidente do Sofa Super Store em Charleston (Junho de 2007, 9 firefighters mortos), começaram a aparecer artigos na imprensa especializada Americana, perguntando para o que servem esses relatórios. De fato, proporcionalmente ao número de incêndios o número de firefighters mortos em ocorrências é baixo. Mas o principal, é que todos os relatórios são idênticos: eles descrevem os eventos, minuto a minuto, e depois concluem que existem protocolos, perfeitos, extremamente bem feitos, bem escritos, muitíssimo simples de por em prática... mas que não foram seguidos. Ou seja, as conclusões são sempre as mesmas: é preciso seguir os protocolos. Os autores dos artigos então começaram a levantar várias hipóteses.
  1. Ou os firefighters são muito estúpidos e não conhecem os protocolos e, nesse caso, ou a gente troca o pessoal ou a gente escolhe outra solução
  2. Os protocolos são seguidos mas o resultado é ruim
  3. Os protocolos são perfeitos no escritório mas inadequados no terreno
Mas, em todo caso, não dá para se contentar de repetir sempre a mesma ladainha, de que é preciso seguir o protocolo.

Observação: enquanto todo mundo acha que nos Estados Unidos todo mundo usa o ICS (Sistema de Comando de Incidente) em todas as ocorrências, ficamos surpresos de ler as mensagens dos comandantes de socorro Americanos em fóruns de bombeiros dizendo que existem realmente protocolos, mas que não são aplicáveis em operação. A divulgação dos protocolos na verdade é obra de formadores, de empresas divulgando normas, mas quase nunca são do pessoal operacional. É como se nós tivéssemos dois universos distintos, sem ligação entre eles: de um lado os teóricos, convencidos da qualidade de seus protocolos, e do outro os práticos que se viram com o aleatório do terreno e da situação.


Um segundo ponto que alguns esquecem...
Todos os militares Europeus concordam num ponto: a obra de Clauswitz foi estudada largamente em todos os exércitos do mundo, mas o Americano só considerou doutrinariamente o primeiro elemento do livro, ou seja, a noção de Centro de Gravidade, que corresponde perfeitamente à mentalidade dos Estados Unidos: definir um objetivo, e em seguida colocar todos os meios para atingi-lo, o que a potência financeira e industrial do país permite sem grande dificuldade.

Mas Clauswitz destaca um segundo ponto: a neblina. Para Clauswitz, a situação é sempre complexa e o que a gente vê na verdade é somente uma parte da situação. Sempre faltam informações, escondidas por uma espécie de "neblina" impenetrável.
Se nós queremos tomar uma decisão, só há duas opções: ou nós buscamos todas as informações, ou nós decidimos com o que temos. Esta segunda escolha é descrita pelo General Desportes em sua obra "Décider dans l'incertitude" ("Decidir na incerteza").
Ao contrário do que a gente pode imaginar, é totalmente impossível ter todas as informações porque, no combate, face a um acidente ou um incêndio, as informações estão em evolução permanente. O que nós vemos num instante e que pode nos parecer primordial para a decisão, pode mostrar-se totalmente sem interesse alguns minutos mais tarde. Além disso, a neblina mascara as informações. E adicionar mais uma ferramenta não muda nada, pelo contrário: quanto mais instrumentos de medida, mais vamos acumular informações, e assim perder tempo a analisá-las para chegar na verdade a conclusões que não estão mais atualizadas com a situação que continuou evoluindo.

Em sua obra "Tactique Théorique" (Tática Teórica) o General Yakovlef, ex-Legionário (da Legião Estrangeira da França), diretor geral da formação na Escola de Blindados de Saumur, na França, cita um caso extremo da verdadeira intoxicação tecnológica. Durante a Guerra Fria entre o bloco do leste e o ocidente, a OTAN havia empregado meios de observação para ver, com muita precisão, uma faixa de 5000km de comprimento e várias centenas de quilômetros de largura , tudo isso para observar toda e qualquer atividade soviética, até a menor que fosse. Entre março e junho de 1999, todo esse equipamento foi redirigido pela OTAN para observar a situação dentro do Kosovo (ex-Ioguslávia), ou seja, um território igual a aproximadamente a 2 vezes o Distrito Federal. Ora, isso resultou numa massa de informação cuja quantidade e evolução permanente tornavam a análise tão difícil que nunca foi possível saber o número de brigadas que os Sérbios tinham no Kosovo, onde elas estavam e em que situação. Quanto aos refugiados, as estimativas oscilavam entre 100.000 e 400.000, e nunca chegaram a ser mais exatas.

Então, é preciso desconfiar da soma incessante de equipamentos propostos aos socorristas ou bombeiros: câmera térmica, sonda, sonar, viseira com exibição de informações, etc... toda uma parafernália que o estresse não deixa você analisar e que, no final das contas, torna complexo o ciclo de decisão, saturando-o rapidamente de informações cuja utilidade não foi estabelecida.

A neblina e os protocolos
Ao contrário, se nós aceitamos essa ideia da neblina, nós concluímos rapidamente que ela dificulta a aplicação dos protocolos. De fato, o protocolo define uma ação a realizar conforme a situação. Se temos apenas 2 ou 3 protocolos extremamente simples, escolher aquele que vamos aplicar é muito fácil, não é preciso grande análise. Mas nesse caso, esses protocolos vão ser gerais demais para ajudar em grande coisa. Por outro lado, se temos todo um conjunto de protocolos precisos, a escolha é mais difícil e exige mais informações. Ora, informações existem em quantidade impossível de estimar-se com antecedência, sensíveis à neblina e evoluindo no tempo. Quanto mais recebermos informação, mais teremos tendência a esperar outras, para verificar a verificação da verificação anterior. E durante esse tempo, nada se faz, a situação continua mudando e se degradando.
Prever tudo...Funciona nas empresas com certificação ISO
O princípio do protocolo tem um outro inconveniente, também ligado ao tempo e ao aspecto imprevisto da situação. No espírito Americano, tudo está previsto, tudo é previsível e tudo se resolve com material. A dúvida não existe.
Quando a gente analisa a organização de uma empresa certificada ISO, constata que nela tudo é previsto: cada ação é definida, com parâmetros de entrada e um resultado na saída. Mas todos os responsáveis da qualidade concordam num ponto: isso funciona perfeitamente, desde que os elementos de entrada de uma ação sejam provenientes de uma ação dentro da empresa. Ao contrário, todas as ações ao redor da organização, ou seja, que recebem dados externos à empresa, têm dificuldades frequentes. Mesmo se você tem absoluta confiança na sua metodologia, ferramentas e competência para fabricar cadeiras de madeira (por exemplo), se o seu fornecedor de madeira não entrega a madeira certa ou se ele entrega com atraso, você não pode fazer nada.
Ora, é exatamente o que acontece em socorro: a gente toma as decisões e realiza ações considerando elementos que a gente não conhece: não conhecemos bem o local, não temos nenhuma ideia do comportamento que a multidão ou as vítimas podem adotar, etc.
O protocolo dizendo que primeiro é preciso fazer isso, depois aquilo, continuar assim e assado... é de fato o reflexo de uma visão teórica de como as coisas vão acontecer, mas não é a realidade. Pois, se a primeira ação que supostamente vai dar certo não der, o que a gente faz? Nesse caso, seria lógico que depois da primeira ação A não basta uma ação B. É preciso ter uma ação B1, para o caso de A dar certo, e outra B2, para o caso de A falhar. Assim, nós teríamos B1 e B2. Mas, para C, acontece o mesmo problema: precisamos de uma ação C1-1 se B1 dá certo, uma ação C1-2 se B1 falha, uma ação C2-1 se B2 funciona e assim por diante... Não precisa ser um grande matemático para entender que o número de possibilidades vai ficar rapidamente impossível de gerenciar.

 Nada acontece como previsto...
 Tendo analisado isso, torna-se evidente que o protocolo será dificilmente adequado à situação. Alguns, sentados diante do computador, vão responder que, nesse caso, basta fazer de outro jeito. Em teoria, sim. Na prática, será extremamente difícil. De fato, se vemos o modo de ensino de socorro em países que usam muito os protocolos, constatamos que os exercícios raramente incluem situações para as quais os protocolos não funcionam. ao contrário, os exercícios validam os protocolos, criando situações que correspondem a eles. Alguém escreve o protocolo, explica-o e depois cria uma situação que o valida, chegando assim cada vez à mesma conclusão: estão vendo? Funciona!

No caso do Brasil, somos confrontados a um grande número de escolas cujos formadores jamais fizeram intervenções de verdade, e cuja única visão é estritamente protocolar. Diante de um vídeo mostrando situações "fora dos protocolos", essas pessoas são incapazes de analisar e entender que, frequentemente, se o protocolo não é seguido é porque ele não pode ser seguido, o que eles, em suas escolas e situações de exercício, são incapazes de imaginar. No caso dos sistemas de tipo militar ou no caso do SAMU, os redatores do protocolo são raramente os que vão utilizá-los. Os atores do terreno encontram-se assim com protocolos difíceis ou impossíveis de utilizar-se. E quando a sua chefia percebe que eles não seguem os protocolos, repreende-os sem jamais duvidar dos protocolos.

O problema é que esse modo de formação não imagina a "neblina" e por isso não dá elementos de decisão para o aluno. Resultado: fora do protocolo, cada um se vira sem nenhuma ajuda. A formação cai em descrédito quando os recém-formados percebem a ineficácia do protocolo. Verdadeiros choques psicológicos. Como imaginar que um aluno a quem foi explicado que os protocolos dão todas as respostas possa reagir eficazmente quando ele percebe que isso não funciona? E pior, sabendo que ele percebe isso numa situação de estresse, às vezes junto a uma multidão agressiva e sozinho diante de uma realidade que vai além do que ele entende...
Não apenas o protocolo é uma ferramenta frequentemente ineficaz, mas ele leva além disso a um sentimento de falsa segurança.
Analisamos recentemente um vídeo mostrando uma equipe Americana combatendo um incêndio de veículo. As ações são perfeitas, os EPIs são colocados com perfeição, o material é impressionante. Infelizmente para os intervenientes, o combustível utilizado no carro não é comum. O primeiro ataque falha. Ora, ao invés de parar, refletir e procurar uma solução em função do que está acontecendo e do que se vê, o que a equipe faz é utilizar, um após o outro, todos os métodos.
A operação parece um catálogo de soluções que os firefighters vão folheando sem jamais ter a capacidade de jogar fora o catálogo e encontrar por si mesmo uma outra opção. O que acontece? Além de não conseguir apagar, a equipe recebe "apoio" de outros veículos que chegam com pessoal e equipamento e cada um com o mesmo "catálogo de soluções", aumentando a confusão: cada um vem e faz de novo o que já tinha sido feito, há até mesmo brigas entre os firefighters... Existe a surpresa de descobrir que as ações são ineficazes, o que piora a situação.

Ao contrário, aceitar a neblina como um elemento incontornável permite evitar essa surpresa. Nós encontramos, na Doutrina dos Sapadores-Bombeiros, uma citação do Coronel Jean-Pierre Perrin: "Apoiando-se no levantamento e numa justa avaliação da ameaça, o trabalho do chefe consiste em prever o pior, de maneira que o pior não aconteça ou, caso contrário, que ele esteja em condições de retomar a iniciativa o mais cedo possível".
Vemos que o chefe deve fazer tudo para que o pior não aconteça, mas ao mesmo tempo ele considera que isso pode acontecer.

A sincronização impossível
É igualmente interessante constatar que a implantação de protocolos mais e mais detalhados e estritos trata essencialmente de técnicas realizadas individualmente ou em grupos muito pequenos. Em desencarceração, as análises mostram que quanto mais os protocolos e ferramentas tornam-se complexos, tanto mais cada micro-grupo de intervenientes fecha-se sobre si mesmo, faz suas ações sem preocupar-se com as de outros. A coesão global não existe mais e as ações de uns podem colocar os outros em perigo.

Uma análise dos acidentes acontecidos nos Estados Unidos em incêndios estruturais mostra frequentemente uma situação totalmente paradoxal: o grupo inteiro é dividido em sub-grupos, cada um executando seu próprio protocolo, geralmente com seriedade e qualidade. De fato, a intervenção para eles é constituída somente de sucessos de micro-protocolos. Mas não basta seguir um protocolo ao pé da letra: ainda é necessário que no conjunto da intervenção a ação realizada seja sincronizada com as ações dos outros. Note-se que mais de 300 acidentes no uso de ventiladores foram levantados pelo site Firefighter Near Miss. Em quase todos os acidentes, cada pequeno grupo seguiu perfeitamente o protocolo. Simplesmente, os diversos protocolos revelaram-se incompatíveis entre si, seja em termos de resultado, duração, efeito, etc. fazendo com que o todo levasse a acidentes. De fato, constatamos que quanto maior o número de intervenientes, maior o número de protocolos executados simultaneamente e mais o resultado vai escapar a qualquer tipo de controle. Isso pode ser comparado à Guerra do Vietnam: os Americanos ganharam todas as batalhas de que participaram, então seria lógico que ganhassem a guerra, mas o resultado foi um fracasso total.

Mas o pior de tudo, é que este fracasso em nível global não pode ser sentido pelos executantes. De fato, cada um fez o seu melhor, cada um seguiu perfeitamente o protocolo. O fracasso, algo global e real, é no fim das contas "culpa de ninguém". Mas se não podemos mostrar o ponto que está falhando, não há melhoria possível.

Exemplos históricos
É sempre possível, para os defensores dos POP, dizer que o exército Americano usa e que isso é razão suficiente. Mas os fatos históricos estão aí: o aumento das técnicas e do material jamais levou a um resultado satisfatório. Vietnam, Iraque ou Afeganistão são, a longo prazo, fracassos. Uma análise atenta da segunda guerra mundial mostra igualmente os limites do sistema: o desembarque aconteceu na Normandia em 6 de junho de 1944 e a cidade de Alençon foi alcançada pelos Aliados em 12 de agosto, ou seja, 67 dias mais tarde. Ora, da praia de "Omaha beach"(local do desembarque) até Alençon são apenas... 160km! O exército Alemão, um exército que funciona plenamente em modo "iniciativa" (Auftragstaktik) e não em modo protocolo, alimentado em armamanto e material em 1944 por fábricas bombardeadas noite e dia, empenhado no fronte leste (União Soviética) e num grande número de teatros de operação conseguiu bloquear durante várias semanas um exército largamente superior em número e em equipamento.

Isso evidentemente não quer dizer que as coisas são sempre assim, mas isso dá uma ideia da distância que pode haver entre teoria e planejamento e a realidade, pois se no final do dia 6 de junho de 1944 as perdas Alemãs e Aliadas (Estados Unidos, Inglaterra...) eram semelhantes (cerca de 10 mil mortos de cada lado), as forças empregadas eram muito diferentes (156 mil Aliados, 40 mil Alemães).
Se nós comparamos isso com os incêndios em que é preciso empregar muita gente, dá para imaginar que o modo de organização é crucial. Porque o desembarque em 1944 deu certo, foi graças ao potencial empenhado, mas principalmente por causa da organização extrema. Pois não basta aumentar o número para ter sucesso: se a tropa não está organizada, o aumento do número só aumenta a desorganização.

Goose Green
Mesmo assim, é evidente que comparar dois modos de funcionamento simplesmente pela confrontação de dois grupos armados é particularmente difícil. De fato, o resultado de uma batalha não depende exclusivamente do funcionamento, mas também do moral, das condições, dos equipamentos. Então, não é porque uma batalha é ganha utilizando um sistema que ele é obrigatoriamente o melhor. Mas o caso da batalha de Goose Green permite fazer uma comparação entre sistemas: o resultado pendulou realmente de um campo ao outro, simplesmente porque um dos campos mudou os fundamentos do seu comportamento, e isso em pleno combate.
Nos dias 28 e 29 de maio de 1982, os Britânicos desembarcaram nas Ilhas Malvinas tentando retomar a cidade de Goose Grens, ocupada pelos Argentinhos. São um pouco mais de 1000 Argentinos, enquanto os Britâncios são apenas 690. Além disso a cidade foi fortificada e os Agentinos dispõem de artilharia, morteiros de 35mm e metralhadoras.

O batalhão Britânico é dirigido pelo Tenente-Coronel Herbert 'H Jones, que exerce o comando na sua forma "hierarquia e disciplina estritas" então em vigor no exército Britânico e não deixando espaço para iniciativa dos subordinados. O Tenente-Coronel havia previsto um plano em 6 partes. Tudo estava preparado e as ordens eram estritas. Mas como a neblina da guerra continua sendo um elemento fundamental dos conflitos, desde o início o plano mostrou-se inadequado. E conforme as coisas evoluíam, a inadequação só fez aumentar. O sistema então começou a se bloquear: as informações chegavam ao ao Tenente-Coronel com um certo atraso, ele analisava conforme sua própria opinião, as ordens partiam e eram recebidas com atraso (em situação de combate, o atraso às vezes é de apenas alguns segundos que, sob fogo, parecem uma eternidade). Sem poder tomar iniciativa, os homens no combate estavam totalmente bloqueados sob o fogo dos argentinos. Diante do impasse na situação, Herbert 'H' Jones decide avançar, ficar bem próximo do front, sempre na intenção de decidir e aplicar protocolos. Ao invés de melhorar a situação, essa escolha piora tudo ainda mais: seu grupo é bloqueado sob o fogo dos Argentinos, e os Britânicos ficam totalmente imobilizados. Para sorte dos Britânicos, e azar dele, o Tenente-Coronel Herbert 'H' Jones é atingido por um tiro Argentino, e morto. Ele é substituído imediatamente por seu ajudante, o Major Chris Keeble. Mas Keeble tinha estado durante dois anos num intercâmbio no exército Alemão (Bundeswher), onde tinha descoberto e praticado a Auftragstaktik, sistema que não utiliza protocolos, e sim deixa um grande espaço para a iniciativa. Keeble então escolheu modificar o eixo do assalto, delegando a escolha dos métodos às diversas pessoas ao seu redor, cada um podendo então escolher seu método e modificá-lo em função dos acontecimentos, tendo assim a possibilidade de "agarrar a oportunidade". Logo que ela aparecesse, sem esperar ordens. A batalha então virou rapidamente em benefício dos Britânicos, mesmo sendo que a única mudança foi na metodologia, optando por uma solução mais simples e, principalmente, mais flexível. A batalha terminou com um saldo pesado para os Argentinos: 47 mortos, 145 feridos e 961 prisioneiros, contra 17 mortos e  64 feridos do lado Britânico. O historiador militar Fitz-Gibson, especialista na batalha de Goose Green, considera que o sucesso Britânico foi resultado de dois parâmetos: de um lado, essa mudança radical de método do lado Britânico. De outro o fato que os Argentinos foram vítimas de seu comando rígido e detalhista que lhes tornava incapazes de lançar o mínimo contra-ataque, mesmo sabendo-se que tiveram várias oportunidades.

Mas não basta melhorar os protocolos?
Mas se os protocolos não funcionam, bastaria melhorá-los. Em um certo sentido, sim. Mas nós já dissemos que ou o protocolo seria simples e não serviria para grande coisa, ou seria preciso um protocolo mais exato, e então seria necessária uma enorme quantidade de protocolos - um para cada situação exata, levando a uma dificuldade de escolha. Além disso, constatamos que em quase todos os casos a melhoria de um protocolo consiste na verdade a adicionar elementos, o que resulta em um protocolo mais difícil de utilizar, ou seja, ainda mais inadequado. Já falamos da intervenção Americana com incêndio de veículo e os protocolos inadequados face a uma situação imprevista. Em sua obra "Anatomia da Batalha", John Keegan analisa a batalha da Somme, e mostra perfeitamente os limites da planificação levada a extremos. Em 1o de julho de 1916, as tropas Francesas e Inglesas partem ao assalto das trincheiras Alemãs, num setor entre as cidades de Albert e Bapaume. Durante 7 dias os artilheiros Franceses e Britânicos derramam um dilúvio de fogo sobre as defesas Alemãs: 12 mil toneladas de morteiros são enviadas em cima de um território de alguns quilômetros quadrados. Em 1o de julho, as tropas Francesas e Britânicas partem ao assalto. Tudo foi previsto, tudo foi estudado, tudo foi cartografado, as táticas serão aquelas utilizadas em exercício. Note-se inclusive que as ordens são escritas num estilo que demonstra perfeitamente a plena confiança na preparação: "A artilharia pesada e de sítio será avançada... Depois de tomar o seu objetivo, a 30a divisão será rendida pela 9a", etc... Nenhuma dúvida. Nenhuma frase do tipo "se a divisão fracassar, então..." Ao contrário, tudo é previsto porque tudo vai acontecer como previsto. Quando o Estado Maior duvida, ao invés de simplificar ou de questionar as ações, ele as complica ou simplesmente intensifica o esforço: um pouco mais de morteiros em tal lugar, mais um pouco nesse outro. Então, tudo é perfeito, tudo foi imaginado exceto por um detalhe: os Alemães cavaram abrigos de até 10m de profundidade que lhes protegem de todo o bombardeio. Assim, os Britânicos encontram as unidades Alemãs intactas. Em 1o de julho, quando as tropas Britânicas saem de suas trincheiras para o assalto das linhas inimigas que eles imaginam destruídas a surpresa é trágica: os Alemães acolhem os Britânicos a tiros de canhão mas, principalmente, com um grande número de metralhadoras. Ao fim da batalha, 21 mil Britânicos foram mortos, um grande número logo nos primeiros minutos.

Se não serve, por que continuar com os protocolos?

Vendo estas análises, podemos nos perguntar por que os Estados Unidos continuam com uma direção estritamente "protocolar". Em sua obra "Le piège Américain" ("A armadilha Americana"), o General Desporte dá um início de resposta. Ele escreve que "Bruno Colson [autor que analisou o comportamento estratégico Americano] vê na potêncai industrial [dos Estados Unidos] uma das razões pela qual o exército Americano tradicionalmente negligencia a arte operacional e a compreensão fina da mecânica social e política dos conflitos nos quais ele se envolve. É verdade que pouco importa a arte da manobra ou a fineza da análise, pois a superioridade em material e em potência de fogo permite por em prática estratégias de destruição e evitar as armadilhas dos estrategistas de manobras."
Quando nós procuramos vídeos no Youtube e vemos Firefighers Americanos empenhar 4 ou 5 veículos para um fogo de carro, constatamos efetivamente que a superioridade material explica esse comportamento: mesmo se o protocolo é inadequado, os meios serão tão grandes que a vitória é certa. Mas essa visão pode até ser boa para os Estados Unidos, mas é surpreendente num país como o Brasil, em que a evolução do PIB leva a crer que as compras de equipamentos vão diminuir, e não aumentar. Mas visto que o Brasil não participou (recentemente) de guerras, e não teve a oportunidade de confrontar-se à realidade dos combates, os Estados Unidos parecem um exemplo mais próximo do que os países Europeus. É fácil ver que os protocolos passam muito mais segurança do que uma abordagem do tipo "não temos certeza de nada".
Mas porque tudo continua igual nos Estados Unidos? A história do Desafio do Milênio ajuda a entender que é acima de tudo um problema de mentalidade, associado a uma questão de lucro  industrial e econômico nacional.

De 24 de julho a 15 de agosto de 2002, os Estados Unidos organizaram um exercício, intitulado Desafio do Milênio 2002, cujo objetivo era simular o ataque de um país que todos os observadores disseram tratar-se do Iran. Esse exercício, que custou cerca de 250 milhões de dólares, colocava de um lado os "azuis" (Estados Unidos) e do outro os "vermelhos" (inimigos). O exercício devia validar o desenvolvimento de novas armas, novos métodos, etc. misturando simulações informatizadas e movimentos de tropas. O comando dos vermelhos (ou seja, os inimigos dos Estados Unidos no exercício) foi assumido pelo General Paul K. Van Riper, aposentado dos Marines. Soldado do terreno, tendo passado pela triste experiência do Vietnam, Van Riper sabia que os métodos fabulosos com tudo bem previsto não funcionam. Tomando como base a sua experiência, Van Riper decidiu então utilizar as soluções de baixo nível tecnológico. Assim, sabendo que os azuis espionavam todas as comunicações por rádio e telefone, etc. ele utilizava essas comunicações somente para transmitir informações falsas, sendo que as verdadeiras eram transmitidas em papel. Para a decolagem dos seus aviões, ele utilizava sinais luminosos como na Segunda Guerra Mundial, e não o rádio.
Depois de bem pouco tempo, convencidos de que sabiam tudo sobre o inimigo, os azuis enviaram aos vermelhos uma ordem de render-se em 24 horas. Para surpresa dos azuis, a única resposta de Riper foi atacar com um grande número de barcos pequenos e lançar uma salva de mísseis que destruíram 16 navios azuis antes que eles tivessem entendido o que estava acontecendo, tudo isso saindo totalmente das previsões! Nesse momento do exercício, os azuis tinham perdido um porta aviões, 10 cruzadores e 5 dos 6 veículos anfíbios, o que se fosse na realidade teria causado a perda de cerca de 20.000 homens. Logo depois desse ataque, uma outra parte da frota marítima azul foi destruída por "pequenos barcos suicidas", dentre outros ataques. Interessante notar que os azuis foram totalmente incapazes de detectar esses ataques suicidas, simplesmente porque a eventualidade de um ataque desse tipo (barcos minúsculos entupidos de explosivos vindo bater nos navios enormes), não tinha sido programada no sistema informatizado, que supostamente devia "ter previsto tudo"...
Nesse momento, o exercício foi interrompido. Parem tudo!!! Para analisar? Para questionar-se? Para admitir o fracasso? De jeito nenhum, muito pelo contrário. O sistema foi reinicializado para recomeçar o exercício, mas dessa vez mandando que os vermelhos seguissem um roteiro pré-estabelecido, permitindo que os azuis ganhassem, obrigando os vermelhos a indicar onde estavam suas tropas, o que elas iriam fazer, etc. De fato, como num exercício de socorrismo ou de incêndio combinado com antecedência, as condições deveriam permitir validar, avalizar o sacrossanto protocolo, e de modo algum permitir duvidar de sua eficácia. Furioso, Van Riper partiu e fez estourar o escândalo, mas nada mudou.

Porque o fundo do problema é que continuar produzindo material super-sofisticado, satélites, caminhões, etc. traz divisas para o país, faz a indústria girar, etc. Ao contrário, apesar de o método utilizado por Van Riper ter-se mostrado largamente superior, ele usou apenas material pequeno, de pouco interesse econômico de fabricar-se.
O fato é que os protocolos funcionam, sim. Eles funcionam muito bem, para aqueles que produzem material (o CAFS é um excelente exemplo no combate a incêndio), livros (como o PHTLS e suas versões), eles dão boa consciência a quem os redige e lhes permite culpar os executantes.
Sejamos lúcidos: você compraria para a sua corporação um material que o vendedor apresentasse dizendo que funciona bem o suficiente, mas que na situação de socorro ele poderá ser inadequado, complicado, saturar você de informações inúteis e que, para aprender a utilizá-lo, é preciso reflexão, inteligência e escolhas difíceis?
Certamente não. Mas o novo equipamento fabuloso, que resolve todos os seus problemas e cuja demonstração começa invariavelmente por "Vocês vão ver, é fácil", aí sim, vamos querer comprar. Mas se olhamos para trás, apesar das melhorias, somos obrigados a admitir que os resultados não são jamais tão bons como anunciados.

De fato, o sistema de ultra-previsão é perfeitamente em sintonia com a mentalidade americana, resumida muito bem pelo General de US Marines James Logan Jones: "no passado nós sempre ganhamos sendo maiores, não mais inteligentes".

Faltou combinar com os russos...
A anedota do Desafio do Milênio e o fato que os barquinhos suicidas não tinham sido "previstos" parece com um fato acontecido em 6 de junho de 1944 nas praias da Normandia. Os GIs (soldados) formados à maneira dos Estados Unidos tinham como princípio o uso de metralhadoras em rajadas curtas. Bastava então avançar correndo entre uma rajada e outra! Beleza!... Em princípio. Pois na realidade esse "protocolo" não funcionava contra os Alemães, que usavam as metralhadoras de maneira diferente. No exército Alemão, as metralhadoras serviam para "grampear" o inimigo no chão, com rajadas contínuas, sem pausa. É inclusive interessante ver no Youtube colecionadores Americanos de armas fazendo demonstrações do uso da MG42, metralhadora alemã, mas que eles usam à moda Americana, e não como os Alemães as utilizavam...
Para tomar um exemplo Brasileiro, como disse Garrincha, "faltou combinar com os Russos".

O problema então não são os protocolos ou procedimentos em si mesmos, mas sim na verdade a distância entre a concepção deles e as condições de uso. Nas empresas certificadas ISO, tudo é feito por meio de Processos e Procedimentos, ou seja, de certo modo, por protocolos Então, isso é uma prova de que funcionam? Não exatamente. Quando uma ação falha, a primeira coisa analisada pelo responsável de qualidade ISO é o respeito ao protocolo. Se ele não foi respeitado, faz-se tudo para que seja respeitado. Se foi respeitado e o resultado é ruim, melhora-se o protocolo.
Mas, sem nenhuma exceção, os procedimentos ISO são feitos internamente, nos locais onde são utilizados e as organizações ISO têm um sistema de subida das informações e consideração às observações dos utilizados dos protocolos. Além disso, os protocolos são criados pelos próprios utilizadores e o responsável de qualidade é somente o maestro da orquestra, ajudando na redação.
Mas é o setor de contabilidade que escreve os protocolos da contabilidade, o setor de fabricação que escreve os protocolos de fabricação, etc. Ao contrário, o aspecto imprevisível do socorro ou das ações militares faz com que redigir protocolos "no terreno" seja impossível, principalmente porque as mesmas condições se repetem raramente. Assim, surge um distanciamento entre os que escrevem os protocolos dentro de seus escritórios e a partir de dados que eles podem analisar com calma, tranquilamente, e aqueles no terreno, confrontados a problemas de urgência e condições frequentemente delicadas.
Pode-se assim considerar que um sistema ISO evolui num contexto fechado, enquanto que o contexto de socorro é aberto.

O sistema ISO funciona pois é composto de protocolos adequados, com um sistema de subida da informação permanente, que permite fazê-lo evoluir de maneira constante. Um sistema que queira aplicar protocolos no terreno das urgências não funciona, tanto porque ele gera protocolos pouco ou nada adequados, mas também porque a subida de informações do terreno é inexistente. Ora, num sistema sem subida de informações, os protocolos agem como um anestésico. O General De Gaulle, na sua obra "O fio da Espada" indica que quanto mais o regulamento tenta prever tudo, mais ele é complicado, inadequado e, principalmente, torna-se uma excelente desculpa para quem não quer fazer nada: o pretexto "não podemos fazer isso, não está no protocolo" é um grande clássico. Situação bem paradoxal, pois quem quer fazer o sistema evoluir, ou seja, quem quer melhorá-lo, é visto como um incômodo que não terá as oportunidades que sua visão e competência merecem.

Inclusive, note-se que a ANSB, nesse nível, optou por dois modos de organização diferentes: fora de socorro, a ANSB funciona numa base ISO-9001 com procedimentos, processos, manuais de documentação, seguimento de tarefas, gestão de não-conformidade, etc. e principalmente com MELHORIA CONTÍNUA. Mas em socorro, o sistema funciona num modelo militar Francês (Efeito Maior) e Alemão (Auftragstaktik), ou seja, sem procedimentos pré-estabelecidos.

Conclusão
Começamos a entender por que os protocolos são inadequados e por que o pessoal de socorro que só tem essa solução fica geralmente desamparado diante do desconhecido. Mas nada nos oferece claramente outra solução. Nós citamos a Auftragstaktik, sem detalhar o que é. Nós também podemos citar o conceito Francês do Efeito Maior, mas somente citar não esclarece coisa nenhuma.
Por isso, vamos dedicar um outro artigo para responder a questão que fica evidente: Como ser eficaz em socorro, quase sem usar protocolos?

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Albert Roche

Novembro de  1918: a guerra, finalmente, terminou [1]
Hora de esquecer o medo, os sofrimento e restrições, fim do regime alemão; após 47 anos anos, a Alsácia volta a ser Francesa. Corações em festa, milhares desfilam pelas ruas de Strasburgo, cantando La Marseillaise [hino nacional da França] e aclamando o generalíssimo Foch sob a prefeitura.
De quepe, o homem aparece na sacada. A multidão delira, grita o nome dado mais tarde à célebre avenida parisiense: “Foch! Foch! Viva Foch!” O general saúda a multidão, volta para dentro do prédio e retorna acompanhado de um modesto soldado de segunda classe. Com um gesto, Foch exige silêncio e apresenta o indivíduo que porta a cruz da Legião de Honra: “Cidadãos da Alsácia, eu vos apresento vosso libertador, Albert Roche, o primeiro soldado da França!”
Mas, quem é esse jovem? O que ele fez de extraordinário para merecer tanta honra e esse título invejável de “primeiro soldado da França”?



A guerra não quer saber de Albert Roche

Nascido em 5 de março de 1895 em Réauville, no bairro de Montélimar, Albert Séverin Roche vem de uma família numerosa de agricultores. Como vários jovens, ele tem 18 anos quando se apresenta no conselho de alistamento. Mas a decepção é grande: reprovado!
No momento da declaração da guerra, em agosto de 1914, ele decide se alistar mesmo assim. Contra a vontade do pai, o jovem quer servir seu país e “fazer a guerra” contra os Boches (alemães).  Para isso, ele sai do povoado durante a noite e se dirige ao campo de Alban: dizem que eles aceitam voluntários por lá. De fato, ele é aceito. Mas vem a segunda decepção: mal amado e mal avaliado, o jovem não conhece nada da guerra além dos quatro muros do campo de instrução. Roche se enfurece. Foge. É pego e vai para a cadeia. Nada leva a crer no futuro radiante do militar ao fim da guerra. 


Albert Roche, o caçador dos 9 ferimentos e 1180 prisioneiros

Na prisão, o “desertor” requer ser movimentado para o front. Afinal de contas, não é essa a sorte reservada aos maus soldados: ser enviados ao front para morrer? O Oficial aceita e Roche junta-se ao 27º batalhão de caçadores alpinos empenhados em Aisne. Lá, Roche vai fazer a guerra ao seu modo.
Enviado ao campo inimigo com dois camaradas para destruir um ninho de metralhadoras, o jovem Roche joga um punhado de granadas dentro do tubo de uma chaminé onde os alemães se esquentam. A explosão mata vários, e os feridos rendem-se facilmente, acreditando estar sendo atacados por um batalhão inteiro. Um ato audacioso que impõe rapidamente o respeito dentro do batalhão: Roche não é mais o “mal amado”.
 
Sozinho, Roche defende uma trincheira em Sudel, na Alsácia: todos os seus camaradas estão mortos, por isso ele coloca os Lebel [fuzis] deles um ao lado do outro sobre toda a linha e passa de um fuzil a outro. Ele carrega, atira, recarrega, atira de novo. A astúcia funciona e os alemães recuam. Alguns meses mais tarde, um novo ato de bravura e audácia: feito prisioneiro com o seu tenente, Roche pula em cima do oficial que está lhe interrogando, toma seu revólver e rende os 12 guardas alemães. Nesse dia, carregando seu tenente nas costas, Roche faz 42 prisioneiros.
Com tiros de fogo e golpes de blefe, aquele-que-ninguém-queria faz cerca de 1180 prisioneiros durante a Grande Guerra.
Albert Roche mandado ao pelotão de fuzilamento  por abandono de posto
No Chemin des Dames [2], o capitão do batalhão é gravemente ferido entre as linhas de batalha. Escutando somente sua coragem, Roche voa em seu socorro e rasteja cerca de seis horas para encontrá-lo e mais quatro horas para trazê-lo. Ele entrega o capitão inconsciente aos maqueiros: o capitão está inconsciente e Roche, esgotado, adormece num buraco de vigilância.
Acordado por um tenente francês, ele é imediatamente preso por “abandono de posto: a pena é execução dentro de 24 horas”. Roche não tem como se explicar, não tem nenhuma testemunha e, em período de motins [3] os processos são rápidos, rápidos demais. É conduzido a uma trincheira para ser fuzilado, mas um estafeta enviado pelo capitão o salva, vindo em socorro do valoroso soldado. Daí, a lenda de Albert Roche nasce e corre a França.


Albert Roche, um herói esquecido

Depois de ter participado das mais grandiosas cerimônias, ter ladeado os grandes, comido à mesa do rei da Inglaterra e acompanhado os restos mortais do Soldado Desconhecido em Paris, Roche retorna a  Réauville, onde casa-se com uma moça de Colonzelle e trabalha fazendo caixas de papelão.
Morre dia 15 de abril de 1939, aos 44 anos, atropelado por um carro ao descer do ônibus voltando da fábrica. Como escreve o historiador Pierre Miquel em La Grande Guerre au jour le jour (A Grande Guerra no dia a dia) das Éditions Pluriel: «Esse homem atravessou quatro anos de guerra, foi ferido nove vezes, passou mil vezes perto da morte, por muito pouco não foi fuzilado injustamente como amotinado. Escapou de todos os perigos, de todos os acidentes [...] e morre vinte anos depois, voltando para casa, ao descer do ônibus”.
Hoje, o seu nome não está entre aqueles que se ensinam na escola, que enfeitam os livros de história ou os dicionários. Vítima do tempo, o tempo que prefere os grandes – aqueles que modelaram o século – somente um busto na frente da casa onde nasceu evoca aquele que foi – e será – o “primeiro soldado da França”.

1 - http://www.suite101.fr/content/larmistice-du-11-novembre-1918-fin-de-la-grande-guerre-a20112
2 - http://www.suite101.fr/content/les-grandes-batailles- de-la-premiere-guerre-mondiale-a22153
3 - http://www.suite101.fr/content /les-mutins-de-la-grande-guerre-ou-la-greve-des-tranchees-a26196
4 - http://www.suite101.fr/content/sous-larc-de-triomphe-le-soldat-inconnu-de-la-grande-guerre-a24026
Artigo: http://suite101.fr/article/premiere-guerre-mondiale--albert-roche-premier-soldat-de-france-a27123

sexta-feira, 16 de maio de 2014

O fim das insuflações?

Recentemente foram publicados dados estatísticos da AHA - Associação Americana do Coração - sobre doenças cardíacas e derramente (The American Heart Association - Heart Disease and Stroke Statistics - 2014 Update) [2] ajudando a ter uma ideia do estado da arte em matéria de massagem cardíaca. Além do fato de que os casos de parada cardíaca continuam frequentes nos Estados Unidos, em razão do modo de vida, alguns elementos relativos à demora e às ações feitas pelos socorristas também são importantes para analisar-se.

Entre esses dados, um chama a atenção dos socorristas e mais especialmente dos formadores: a diferença de sobrevivência entre as vítimas nas quais foram feitas compressões e insuflações e as vítimas que só receberam compressões.
De fato, os dados mostram uma melhor taxa de sobrevivência das vítimas nas quais os "socorristas cidadãos" só fizeram compressões torácicas (10,2%) em comparação com vítimas que receberam compressões e insuflações (8,5%). Esse resultado pode parecer surpreendente. Seria mais lógico que alguém recebendo compressões E insuflações tivesse maiores chances de sobrevivência. Mas as estatísticas demonstram o contrário.
Ao mesmo tempo, aqueles que se interessam pela evolução dos procedimentos de socorrismo cidadão sabem que as mudanças vão no sentido de abandonar totalmente as insuflações, e manter as compressões apenas.

Atenção: aqui estamos falando de formação de primeiros socorros para grande público, ou seja, para gestos praticados "sozinho e sem equipamento".

Por quê?

Com um manequim de treinamento bem evoluído, é possível medir tanto a eficácia das compressões quanto das insuflações. Neste caso, é fácil constatar que as 4, 5 e até 6 primeiras compressões de cada ciclo têm um resultado medíocre: mau posicionamento das mãos, força insuficiente aplicada sobre a caixa torácica...
Ora, esse defeito nas primeiras compressões acontece a cada vez que o ciclo se repete: cada série de compressões começa por várias compressões ineficazes, e depois o socorrista "pega o ritmo". Infelizmente, a cada série de insuflações, nós paramos as compressões e, ao voltar, essas compressões ineficazes acontecem de novo.
Quando se constata que mesmo formadores experientes fazem essas compressões ineficazes, dá para imaginar que os socorristas fazem um pouquinho pior, pelo menos.

Os ritmos

Antigamente, o ciclo de RCP era 15/2: 15 compressões para 2 insuflações (Guia Nacional de Referência em Primeiros Socorros da França, 2001 ou Manual de Primeiros Socorros do Ministério da Saúde, Brasil, 2003, por exemplo)
Nesse contexto, as 4, 5 ou 6 compressões ineficazes levavam a um resultado globalmente regular: 5 compressões ineficazes, 10 compressões eficazes, interrupção para duas insuflações, geralmente de qualidade regular.

Na duração total, somando-se o tempo das compressões ineficazes com o tempo das insuflações (elas também frequentemente ineficazes), chegamos, no ciclo de 15/2, a cerca de 50% do tempo desperdiçado.

Medindo a taxa de sucesso nas compressões: 5 compressões ineficazes num total de 15, dá uma taxa de sucesso de somente 65%.

Nós constatamos inclusive que no documento "Manual de Primeiros Socorros do Ministério da Saúde-2003", Brasileiro, é dito que quando houver 2 socorristas o ritmo será de 5 compressões por duas insuflações. Mas como o ciclo de compressão é geralmente interrompido a cada ciclo de insuflação, isso leva de certo modo a fazer somente compressões ineficazes. Verdadeira armadilha: acreditando fazer bem favorecendo as insuflações (num ritmo de 2 para 5 compressões, ao invés de 2 por 15), chega-se na verdade ao resultado pior.

Somava-se a isso (e continua assim) a hesitação da maioria das pessoas em fazer insuflações numa vítima babando ou com ferimentos no rosto.
A tentativa de distribuir pequenas máscaras para fazer insuflações leva, paradoxalmente, a um resultado inverso do esperado: na cabeça do socorrista, a máscara "prova" que há realmente um perigo em insuflar sem ela. Isso leva quem não tem a máscara... a não fazer nada!

Observação: nós constatamos a mesma coisa no caso de hemorragias. Aumentando o medo de possível transmissão de doenças no contato com sangue, leva-se o socorrista potencial a não fazer nada se não tiver luvas. Ou seja, vamos deixar morrer a vítima de hemorragia. É bom lembrar que a transmissão de doenças pelo sangue exige que a pessoa tenha essa doença e que o socorrista tenha ferimentos nas mãos ou receba sangue nos olhos ou mucosas! Ou seja, as "chances" de ser infectado são quase nulas, enquanto que a falta do gesto de socorro face a uma hemorragia leva inevitavelmente à morte da vítima.

No início dos anos 2010 (quando foram mudadas as recomendações mundiais em matéria de socorrismo, seguindo o ciclo de 5 anos estabelecido entre as agências internacionais) uma mudança importante foi feita: passagem do ciclo 15/2 ao 30/2 e tendência geral, em nível pedagógico, de obrigar menos os alunos a insuflar. Passamos assim de "você tem de insuflar!" para "se você não puder insuflar, não é um grande problema". E passando a um ciclo de 30/2, as 4, 5 ou 6 compressões ineficazes continuam lá, evidentemente. Mas agora no ciclo de 30 nós podemos esperar ter 25 boas.
Ou seja, 80% de compressões boas, contra 65% num ciclo de 15/2.

Não insuflar mais?

Os resultados da AHA continuam sempre no sentido de diminuir as insuflações e fazem pensar que haverá mudanças em breve. De fato, é possível levar a conclusão mais longe: como a cada ciclo nós temos cerca de 5 compressões ineficazes e que na maior parte dos casos as pessoas não vão insuflar, então o melhor seria não insuflar de jeito nenhum. Então, nós teríamos um só grande ciclo de compressões começando na descoberta da vítima e parando somente no momento do choque de um eventual desfibrilador, para recomeçar em seguida. Sabendo que o ciclo contém aproximadamente 100 compressões por minuto e que o desfibrilador entra em ação a cada 2 minutos, isso significa que num ciclo completo haverá aproximadamente 200 compressões. Teremos sempre as 5 compressões ineficazes no início, mas em seguida 195 compressões potencialmente boas, ou seja, uma taxa de eficácia da ordem de 97%!

No caso do socorro bem sucedido do Sr. Tunes, em Piratini-RS, no meio de 2013, notamos que o Sapador-Bombeiro que fez a massagem não insuflou nenhuma vez, pois a vítima babava (resultado de convulsões que tivera imediatamente antes). O socorrista então realizou 3 séries de 30 compressões, sem parar, até que a vítima recomeçou a respirar. Nesse caso, estamos diante de 5 compressões ineficazes num total de 90, ou seja, uma taxa de sucesso de cerca de 95%.

Atualmente

Na situação atual, sabendo que as recomendações internacionais são divulgadas a cada 5 anos, é somente no final de 2015 que as coisas vão mudar. Na ANSB, nossas diretivas nacionais seguem as diretivas internacionais, então é bem provável que a reciclagem de 2016 dos formadores de Socorrismo da associação trate desta modificação de atitude diante da parada cardíaca. Por enquanto, continuamos formando no ritmo 30/2, mas não vamos nos espantar com a mudança que está por vir.

Ainda assim, as grandes associações já tomaram a dianteira: A AHA divulga no seu site [3] informações sobre a Hands Only CPR (massagem cardíaca unicamente com as mãos), as rádios americanas divulgam neste momento mensagens sobre o assunto, e a Fundação Britânica do Coração fez clipes [4] e divulgou inclusive um aplicativo para Android e iPhone que permite medir a profundidade das compressões, utilizando o acelerômetro do aparelho.[5]

Teoricamente, o ciclo de publicação das recomendações é de 5 anos. A última divulgação oficial data de 2010[6], a próxima então está prevista para 2015. Assim, por enquanto a situação é um pouco ambígua, de dúvida. De fato, a AHA já preconiza a massagem cardíaca sem insuflações, enquanto as recomendações ainda válidas tratam de compressões + insuflações. O ciclo de atualização da ANSB també é de 5 anos, então atualmente os membros da Direção Nacional da Formação estão desde já refletindo nas mudanças que essas mudanças trarão em termos de pedagogia, conteúdo e explicações. Pois, como em toda mudança, os formadores serão confrontados a várias perguntas às quais eles devem ter as respostas corretas.

Digamos que os únicos a esbravejar serão sem dúvida os vendedores de pulmões para manequins de RCP...


1 - http://www.emsworld.com/news/11315770/aha-releases-latest-statistics-on-out-of-hospital-cardiac-arrest?utm_source=EMS+World+News+Recap&utm_medium=email&utm_campaign=CPS140215005
2 - http://circ.ahajournals.org/content/129/3/e28
3 - http://www.heart.org/HEARTORG/CPRAndECC/HandsOnlyCPR/Hands-Only-CPR_UCM_440559_SubHomePage.jsp
4 - http://www.bhf.org.uk/heart-health/life-saving-skills/hands-only-cpr.aspx#&panel1-4
5 - http://www.bhf.org.uk/heart-health/life-saving-skills/hands-only-cpr/app-enquiry-form.aspx
6- http://www.heart.org/HEARTORG/CPRAndECC/Science/Guidelines/2010-AHA-Guidelines-for-CPR-ECC_UCM_317311_SubHomePage.jsp

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Por que não tomamos o pulso?

Nos cursos de socorrismo cidadão, os formadores Sapadores-Bombeiros às vezes têm alunos que são enfermeiros ou médicos, que se espantam do fato de não tomarmos o pulso de uma vítima para saber se ela está em parada cardíaca.

Os médicos que validam os cursos de formadores da ANSB também às vezes fazem esta observação antes de nós darmos o motivo.
Para entender por que não tomamos o pulso, primeiro é preciso colocar as coisas no contexto. O socorrismo cidadão é parte do que chamamos "corrente do socorro". Esta corrente é o encadeamento de ações, feitas por pessoas com competências diversas. Cada elemento da corrente do socorro tem sua importância, seus limites e suas condições de existência. O tamanho do Brasil e a repartição muito desigual das estruturas de socorro faz que demore às vezes 30, 40 minutos, ou até algumas horas para que o socorro chegue à vítima. Ora, o tempo é o elemento mais crítico. Por isso, não é tendo uns poucos super especialistas da massagem cardíaca que vamos conseguir salvar mais pessoas. Pois mesmo se o melhor cardiologista do mundo for brasileiro, não vai adiantar nada se ele não estiver por perto quando você tiver um ataque cardíaco. Por isso, é preciso formar o maior número possível de pessoas para fazer gestos simples.

Este é o objetivo do curso de Socorrismo Cidadão dado pelos formadores da ANSB, curso que se resume simplesmente em: "socorrer, mesmo sozinho e sem equipamento".
É exatamente neste curso, dado a qualquer pessoa acima de 10 anos, sem nenhum conhecimento especial, que não se ensina mais a tomar o pulso. Por outro lado, para o exercício de suas missões os Sapadores-Bombeiros devem possuir a formação PSE (Primeiros Socorros em Equipe), e aí sim, aprendem a tomar o pulso.

Antigamente, a gente tomava o pulso...

Desde Janeiro de 2001, o GNR AFPS (Guia Nacional de Referência sobre os Primeiros Socorros Cidadãos) da França não indicava mais que se tomasse o pulso.
Mas até aquele momento, tomar o pulso era algo ensinado ao grande público. Esse ensino era baseado na ideia de que é perigoso massagear um coração que está batendo. Veja, isto é falso. O coração é um músculo, e comprimí-lo não vai impedir seu funcionamento.
Isso também estava ligado ao fato que o coração pode continuar a bater mesmo se a vítima não respira. Mas acontece que, mesmo se isso é verdade de um ponto de vista médico, não é uma situação duradoura: o coração logo vai parar também. Ligado ao ponto anterior, essa suposição obrigava a verificar bem se havia ou não um pulso, para evitar o risco de massagear um coração que ainda batia.

O aluno ficava numa situação delicada, pois lhe pediam para tomar o pulso colocando-o diante da situação apresentada como perigosa... Alguns formadores chegavam a dizer que você podia matar uma pessoa se massageasse o coração funcionando!!

O golpe de misericórdia começou com o estudo de M. Liberman, A. Lavoie, D. Mulder, J. Sampalis, em setembro de 1999, intitulado "Cardiopulmonary resuscitation: errors made by pre-hospital emergency medical personnel". Nesse estudo, pessoas trabalhando no apoio médico de emergência receberam vítimas com ou sem pulso, com o objetivo de definir se tomar o pulso era realmente confiável. Sabendo que os ensaios foram feitos com socorristas experientes, era de se esperar um bom resultado. Na verdade, foi o inverso que aconteceu, e os estudos seguintes confirmaram:
Em mais da metade das vítimas com pulso, ele não foi detectado. O que quer dizer que os socorristas continuaram a massagear um "coração batendo", prática que era considerada perigosa.

Mas na metade das vítimas sem pulso, o pulso foi encontrado! Isso pode parecer surpreendente, mas todos os socorristas com um pouco de experiência sabem disso: nem sempre nós tomamos o pulso da vítima. Às vezes, nós tomamos o nosso próprio. Isso é bastante fácil de verificar: faça algumas flexões para aumentar seu ritmo cardíaco, em seguida aperte o seu polegar ou os seus dedos contra a parede. Você vai perceber um pulso. O seu, evidentemente, porque a parede não o tem! Ora, nesse caso, o socorrista que acha que está sentindo o pulso da vítima vai parar a massagem cardíaca que é necessária para a sobrevivência dela.

Assim, as autoridades chegaram em conjunto a uma conclusão:
  • se você massageia um coração que bate, não tem problema
  • se você NÃO massageia um coração em parada, é um grande problema
  • tomar o pulso não é um procedimento confiável

Foram estes elementos que levaram à conclusão de que tomar o pulso não deveria mais ser ensinado ao grande público. Principalmente porque sua falta de confiabilidade arriscava levar o socorrista a parar sua ação quando ela seria tão necessária para a sobrevivência da vítima.


De fato, numa pessoa que não respira, tomar o pulso não é pertinente. Os outros sinais (falta de respiração, falta de reação às insuflações, etc...) são o bastante para determinar a situação e portanto a decidir se a vítima "respira" ou "não respira", o que permite ao socorrista optar pela colocação em posição lateral de segurança (vítima inconsciente que respira) ou pelos ciclos de compressões-insuflações (vítima inconsciente que não respira)

Por isso é que a solução ensinada nos cursos de socorrismo cidadão é simplesmente, depois de inclinar a cabeça da vítima para trás (Liberação das Vias Aéreas), que o socorrista aproxime a cabeça do rosto da vítima para sentir uma eventual respiração, ouvi-la e ver seu movimento, tudo em no máximo 10 segundos. Passado esse tempo, sem perceber-se nenhum sinal, a vítima é considerada "inconsciente que não respira" e a massagem cardíaca deve começar.

O socorrismo evolui, sempre. Os formadores de socorristo cidadão da ANSB passam por reciclagem anual exatamente por esse motivo...

domingo, 30 de março de 2014

O colar cervical: Utilizado bem ou utilizado demais?

Nos últimos anos, todas as pesquisas têm mostrado que o colar cervical não é inofensivo.

As técnicas de socorrismo estão em evolução permanente. Métodos de massagem cardíaca que pareciam maravilhosos há alguns anos já foram totalmente abandonados, e o mesmo aconteceu com a colocação sistemática de oxigênio. Já há algum tempo, é o colar cervical que está sendo alvo de um número crescente de pesquisas médicas. Neste artigo vamos tentar recapitular as várias pesquisas pois as conclusões têm sido as mesmas e, sem exceções, exigem que os socorristas mudem seu comportamento.


Introdução

Antes de começar a falar das pesquisas sobre o uso do colar cervical e entender a problemática que agita a área médica, vamos tomar o exemplo do xarope para tosse. Você ainda se lembra? Você tinha 8 ou 10 anos, estava meio doente. Mamãe lhe dava um xarope, dizendo "Toma, vai te fazer bem". E como o seu irmãozinho estava olhando, mamãe colocava mais um pouco de xarope na colher e dava ao caçula dizendo "Toma, não vai fazer mal".
Esta cena é familiar para muitos de nós, mas é difícil imaginar a mesma coisa com uma injeção intravenosa. Nós nunca vimos o médico injetar um produto num doente e dizer a outra pessoa "vem aqui para eu te dar a mesma injeção, porque não vai fazer mal".
Note que existem medicamentos vendidos sem receita, mas outros somente são vendidos com ela. Os que são vendidos sem receita "não vão fazer mal". Mas os outros, sim. O fato de um tratamento fazer bem para quem precisa dele não é obrigatoriamente sinal de que "não faz mal nenhum" a quem não precisa.

O caso do oxigênio

O uso do oxigênio em vítimas é um exemplo excelente desta nuance e da evolução. Há poucos anos atrás, oferecer oxigênio à vítima, com uma vazão de 15 litros por minuto era a regra. Muitos de nós fomos formados por esse princípio e durante as provas de socorrismo a equipe que não colocasse sistematicamente oxigênio nas vítimas perdia pontos. Em 2010 aproximadamente, os estudos médicos sobre essa utilização sistemática de oxigênio levaram a uma modificação das regras de uso. Como o oxigênio é um vasoconstritor e oxidante, ele tende a modificar o fluxo sanguíneo e produzir radicais livres que podem ser citotóxicos (tóxicos para as células), ou seja, degradam as células que já estão em sofrimento (recomendações da Sociedade Francesa de Anestesia e Reanimação, da Sociedade Europeia de Cardiologia e de um estudo publicado no Journal of American College of Cardiology). Assim ficou claro que dar oxigênio em grandes doses tendia a agravar o estado das vítimas no caso de AVC ou de infarto do miocárdio. Os cursos de Socorrismo (PSE Francês edição 2013, curso PSE dos Sapadores-Bombeiros do Brasil, dentre outros) consideram esta particularidade do oxigênio.
Esquematizando, até agora oxigênio era usado de um modo que pode ser comparado ao do xarope da mamãe, ou seja, "de qualquer modo, não faz mal nenhum".

A partir da mudança, o modo de ação tornou-se mais sutil: é preciso determinar a necessidade ou não de dar oxigênio à vítima, pois em alguns casos ele é benéfico, em outros ele é danoso.
A oferta de oxigênio a uma vazão de 15 litros por minuto, que era a regra, desapareceu dos cursos, dando lugar a vazões de 3, 6 ou 9 litros por minuto. Sem entrar em detalhes que são próprios do conteúdo do curso, o socorrista deve cuidar para que a saturação fique entre 94 e 98%.
Um artigo publicado em dezembro de 2012 na revista Secourisme Revue número 180 assinado pela Dra. Carole Carlolet termina com o seguinte parágrafo: "A modificação do procedimento operacional e as novas indicações podem ser mal compreendidas ou tomadas com reticências por causa do discurso mantido por vários anos"... E não dá para esquecer que o adulto aprende se ele entende". Nós concordamos totalmente, mas ainda assim é preciso que o adulto queira entender. E quando nós vemos alguns comentando nossos artigos, temos razões para duvidar...

O colar cervical

Voltemos ao colar cervical e seu uso. Ou melhor dizendo, a seu uso sistemático. Porque é esse o problema para os médicos. É o mesmo que acontece  com o oxigênio. Não foi dito nada sobre deixar de usar oxigênio e parece que não é o caso de abandonar o colar, mas sim de saber se é "um xarope do qual você pode dar uma colher pois não vai fazer mal" ou se é alguma coisa que pode sim fazer mal.

Importante: nosso artigo não vai citar todas as fontes pois quanto mais procuramos estudos sobre o uso de colares cervicais mais nós encontramos. O assunto parece intrigar mais e mais médicos. Veja que neste nosso artigo sobre a avaliação e o tratamento dos traumatismos do pescoço, citamos o Doutor Frohan [1], que por sua vez cita 133 outros artigos e pesquisas... Para ter acesso aos trabalhos de pesquisa, o melhor é usar o google específico: scholar.google.com ou http://www.base-search.net/, pois o Google mais comum dá resultados gerais demais.

Primeira surpresa...

Todos os estudos científicos, as monografias, etc... são baseados no mesmo princípio: o assunto é definido e depois levam-se em conta as pesquisas precedentes para completar, contradizer, etc. No caso do colar cervical, o ponto de partida são as pesquisas feitas durante a implantação do colar cervical nos serviços de urgência. Ou pelo menos, isso é o que todos os pesquisadores tentaram fazer... TENTARAM pois ninguém nunca encontrou pesquisa anterior! De fato, parece que o colar cervical foi baseado numa ideia... jamais demonstrada. É isso mesmo que você leu. Nenhum estudo jamais demonstrou a utilidade do colar. Com o passar do tempo, todo mundo começou a colocá-lo, os fabricantes venderam centenas de milhares, mas quem disse que ele servia para alguma coisa? Ninguém.
Como declara o Dr. DeMond, Diretor médico do EMS Ground Transports - La Plata County, no Colorado "Visto que os experts concordam que não há nenhuma evidência científica de que a imobilização da coluna cervical previne uma lesão secundária, o benefício é hipotético" (no original em Inglês: "Because experts will agree that there is no scientific evidence that C-spine immobilization prevents a secondary injury, the benefit is hypothetical.")

Quando nós debatemos com socorristas sobre o colar, constatamos efetivamente que ninguém tem argumentos precisos a seu favor. Têm apenas opiniões. Geralmente, o socorrista cita as lesões que podem decorrer, destacando principalmente a tetraplegia, por exemplo. Ora, existem realmente lesões graves relacionadas com a coluna cervical, mas nada demonstra a capacidade do colar para evitar a agravação de uma lesão existente ou de impedir uma nova. As pessoas PENSAM que é bom, mas isso é uma opinião. Um "achismo"! E a medicina quer fatos, não opiniões.

Aliás, se nós relemos as respostas ao nosso artigo sobre o KED [2], nota-se que os socorristas que criticam não dão argumentos: de um lado, nos dizem que as lesões podem ser graves, e obviamente citam casos "que dão medo". De outro dizem "então é preciso um colar". Mas não existe prova de ligação entre os dois.

O Doutor Helge Asbjørnsen, anestesista no HEMS Norueguês escreve [3]: "O colar cervical tornou-se uma MALDIÇÃO. Ele é considerado a prova gloriosa dos cuidados de traumatologia de boa qualidade. Nenhum serviço pré-hospitalar ousa entregar um paciente a um serviço de traumatologia sem colar cervical. Mas isso não é baseado nem nos mecanismos do trauma nem nos sintomas do paciente, e sim unicamente no medo das críticas do chefe de equipe de traumatologia formado em ATLS (Advanced Trauma Life Support - Suporte de vida avançado em trauma). Não me entenda mal, o ATLS ajudou muito - mas ao mesmo tempo é lento para se adaptar a novas tendências. Conhecer o ATLS não é uma desculpa para deixar de pensar".

Os estudos

Já há alguns anos, pesquisadores, médicos e socorristas começaram a analisar o estado da vítima na chegada ao pronto-socorro. Os estudos, sejam aqueles realizados na Europa, Ásia, nos Estados Unidos... tinham todos por objetivo responder a uma questão dupla: "em quantos casos o colar cervical é útil?" e "se nós colocamos o colar em indivíduos que não precisam dele, qual será o resultado?".
Todas as conclusões são semelhantes: colocado numa vítima que não precisa dele, o colar agrava a situação, às vezes de forma muito severa.

Estudo em Taiwan
Num período de 2008 a 2009, 9 pesquisadores (médicos, urgentistas...) de Taiwan fizeram a análise de 8633 vítimas de acidentes de moto em meio urbano. Metade das vítimas teve um colar cervical colocado, e a outra metade,não [4]. A primeira constatação foi que depois de análise em meio hospitalar, somente 63 vítimas tinham realmente uma lesão cervical, ou seja, 8570 vítimas não tinham nenhum motivo para a imobilização. A segunda constatação foi que em termos de duração total da hospitalização, nenhuma diferença foi encontrada entre as vítimas com ou sem colar. Mas todas as vítimas com colar tiveram complicações e dores suplementares, aumentando em todos os casos o tempo delas em serviços de tratamento intensivo, cujo custo é particularmente alto. A conclusão do estudo foi que o protocolo deve ser revisto, a fim de reduzir o tempo de hospitalização em tratamento intensivo, evitar complicações e assim baixar o custo.

Quanto custa?
Enquanto que o estudo Taiwanês insiste no fato que colocar colar cervical aumenta a hospitalização em tratamento intensivo, e com isso aumenta o custo global do cuidado hospitalar, o Dr. William J. Frohna MD, membro da Faculdade Americana de Médicos de Emergência [1] vai mais longe ainda.
Vamos nos contentar de traduzir aqui um pequeno parágrafo do estudo, que trata dos Estados Unidos:
"O pessoal do pré-hospitalar deve suspeitar de uma lesão cervical em potencial em qualquer trauma e em qualquer paciente com estado mental alterado sem razão conhecida. Com essas orientações liberais, a imobilização da coluna cervical é um dos procedimentos pré-hospitalares mais frequentes. Estima-se que cerca de 5 milhões de pacientes recebem imobilização cervical anualmente, a um curso de U$ 15 por pessoa ou U$ 75 milhões por ano nos Estados Unidos. Esses custos não incluem o maior tempo na cena do acidente, desconforto do paciente, frustração pessoal entre paramédicos e pacientes sem lesões, e a visita ao hospital após essa imobilização liberal. Recentemente, Hauswald et al [5] examinaram os efeitos da imobilização cervical em emergência extra-hospitalar na lesão neurológica comparando pacientes de trauma na Malaysa (sem serviço de emergência médica pré-hospitalar) com um grupo de pacientes de trauma no Novo México-Estados Unidos (com imobilização da coluna no pré-hospitalar). Eles encontraram MENOS distúrbios neurológicos nos pacientes não imobilizados da Malaysia. Sahni et al [6] mostraram concordância excelente na avaliação de pacientes simulados com potencial lesão da coluna cervical por médicos ou por paramédicos. A informação deste e de futuros estudos podem permitir o desenvolvimento de protocolos pré-hospitalares para determinar quando um paciente não tem lesão cervical."

Os cadáveres...
Todos os estudos comparam, inclusive em grande escala, os efeitos entre pessoas com ou sem colar, mas nenhum até agora havia tentado comparar o efeito da colocação do colar, ou seja, o estado "antes" e "depois". O problema é que para medir o estado "antes", seria necessário por exemplo fazer uma radiografia e depois refazê-la com o colar, o que é difícil.

Mas em 2011 membros do Spine Research Laboratory (Laboratório de Estudo da Coluna) do Centro Médico Michel E. Debakey Veterans Administration, em Houston, Texas, fizeram um estudo no mínimo espantoso [7]. Eles utilizaram corpos de 7 pessoas logo após a morte. Fizeram radiografias e várias medidas nos 7 cadáveres, colocaram-nos em posição neutra e depois colocaram um colar cervical em cada um. Depois de colocar o colar as medidas foram refeitas. Os médicos então perceberam que o colar, no local onde ele fica em contato aproximadamente no nível das orelhas e da base do pescoço, cria eixos de rotação diferentes dos que nós temos naturalmente. O resultado são estiramentos em eixos não naturais e que agravam às vezes muito seriamente a situação. Assim, deslocamentos de até 7mm foram medidos no sentido do eixo, significando que em caso de fratura de vértebras, a colocação do colar cervical terá tendência de agravar muito seriamente a situação, provocando um estiramento dos elementos fraturados ou fissurados. Dá para dizer que o estudo é limitado, pois só considerou 7 casos. É verdade. Mas em 100% dos casos, os eixos de rotação "não naturais" criados pela colocação do colar cervical vão ser os mesmos e levarão invariavelmente aos mesmos efeitos.

Pressão sanguínea
Um estudo realizado em 2009 [8] também permitiu determinar que a colocação de um colar provoca dificuldades de circulação sanguínea e aumenta muito sensivelmente a pressão intracraniana, com todas as consequências que se pode deduzir no caso de lesões do tipo do traumatismo craniano. Essa modificação da pressão intracraniana já havia sido detectada num estudo com pacientes com traumatismo, em 2002 [9]. As conclusões foram as mesmas com constatação de agravamento em 9 dos pacientes examinados.

Um xarope ou uma intravenosa?

Esses estudos levam todos a questionar a que nós podemos comparar o colar. A um xarope que "não faz mal nenhum"? ou a uma intravenosa que pode fazer bem... ou muito mal? Um artigo, publicado em novembro de 2013 [11] fez um resumo bem simples da situação, desmontando um por um os argumentos a favor do colar. Veja abaixo um resumo rápido:
Mito 1 - Muitos pacientes têm lesões cervicais. Na verdade, estudos mostraram que as lesões cervicais ocorrem em aproximadamente 0,7% dos acidentados.
Mito 2 - Um novo movimento pode agravar a situação. Isso é verdade, mas é demonstrado que a simples colocação da vítima numa posição estável é suficiente pois a própria pessoa vai limitar os movimentos dolorosos (o que reforça nosso artigo anterior sobre o KED, no qual nós fazemos evidentemente a diferença entre a vítima consciente e a vítima inconsciente ou muito agitada)
Mito 3 - O colar restringe os movimentos do pescoço. Isso é falso. Na verdade, o colar imobiliza muito mal. E para imobilizar perfeitamente (sistema de imobilização na prancha), você aumenta o dano à vítima.
Mito 4 - Vamos colocar o colar, assim a gente fica tranquilo. Ou seja, não faz mal nenhum. Mas colocar o colar limita a capacidade respiratória em aproximadamente 15 a 20%, aumenta a pressão sanguínea intracraniana, afasta as vértebras quebradas ou fissuradas... Difícil dizer que não vai fazer mal!

O que fazer?

Algumas entidades médicas já aprovaram notas de conselhos que questionam seriamente a aplicação sistemática do colar, do KED e o uso da prancha.

A Faculdade Britânica de Cuidado Pré-hospitalar no Royal College of Surgeons of Edinburg (Real Faculdade de Cirurgiões de Edimburgo) divulgou em 2012 um apanhado de conselhos para socorristas:
O paciente consciente dentro do veículo, que não tenha lesões maiores que o impeçam de movimentar-se e que não tenha abusado de álcool ou drogas, a menos que esteja preso deve ser convidado a sair sozinho e deitar-se na maca. Do mesmo modo, o paciente que saiu sozinho do veículo pode caminhar com um socorrista até a ambulância e colocar-se em posição supina, ser examinado e então imobilizado se necessário.
Note que não se diz nada de pranchas, e sim de deixar o paciente deitar-se na maca.

Nas mesmas recomendações nós encontramos também a seguinte informação: A prancha espinhal longa (prancha rígida) é uma ferramenta de extricação, somente. A estabilização manual alinhando o pescoço é um substituto adequado ao colar cervical.

No dia 22 de março 2014, publicamos que os sistemas de emergência médica pré-hospitalar de Wichita-Sedgwick County e de Johnson County, no Kansas, Estados Unidos, abandonaram recentemente o uso sistemático de pranchas rígidas [11]. E que a doutora Braithwaite, do serviço de Wichita-Sedgwick espera que outros no estado o façam em breve.

Como os Sapadores-Bombeiros aprendem isso: a prancha é um equipamento exclusivamente para a retirada de vítimas, e de modo nenhum apropriada para o transporte. Então, uma vítima pode ser retirada utilizando-se uma prancha, mas não deve ser transportada nela, porque isso piora o seu estado, com dores dorsais e complicações (que as pessoas vão atribuir ao acidente, quando na verdade são efeito do transporte!)

Conclusão

Mais e mais, os profissionais, médicos e socorristas com espírito aberto para se questionar chegam à conclusão de que o colar cervical não é como um "xarope inofensivo". E o mesmo acontece para a prancha.
Para os Sapadores-Bombeiros, nós podemos resumir a situação do seguinte modo: em caso de vítima inconsciente ou agitada, coloca-se o colar, retira-se a vítima do veículo com a prancha e coloca-se a vítima no colchão à vácuo.
Em caso de vítima consciente, dialogar para saber se ela pode mover-se sozinha. Em caso positivo, deixá-la sair ou levantar-se sem ajuda dos socorristas (ou com ajuda mínima, como no caso de uma pessoa idosa que a gente ajuda a sair do carro). Se a vítima não consegue se mover ou queixa-se de dor, determinar os pontos doloridos, colocar tala ou colar (conforme a análise), sempre respeitando a opinião da vítima. Se necessário, utilizar a prancha para retirar a vítima do local do acidente, e em seguida colocá-la sobre o colchão a vácuo para o transporte.

Não se trata de suprimir o uso do colar, nem da prancha. Mas se trata, rapidamente, de rever os protocolos e evitar a sistematização.
Você poderia aceitar que um médico indique uma operação cirúrgica ou uma injeção sem nem examinar nem fazer perguntar à vítima?
No entanto, todos os dias no Brasil nós vemos pessoas ditas profissionais chegar numa vítima consciente, colocar imediatamente um colar e colocar a vítima numa prancha sem saber o que aconteceu e sem se informar do estado dessa vítima...

Evolução - problema de formação

Mesmo com tantas provas do perigo da imobilização sistemática de vítimas conscientes, é bem provável que alguns ainda continuem com esse método por muito tempo. Mas, diante de tanta evidência, como não mudar? A resposta vem, na nossa opinião, do conceito de ensino. Em aula, os alunos aprendem técnicas, ou seja, gestos que eles repetem. Mas uma análise mostra que na quase totalidade dos casos, não basta o gesto. É preciso ter a razão profunda da sua utilidade.

É preciso dizer que frequentemente o sistema ao qual o formador pertence não lhe dá ferramentas pedagógicas: É o formador que faz seus próprios slides, suas apostilas, suas provas. Fazendo isso, ele filtra consciente e inconscientemente as informações.
A fraqueza desse sistema não aparece de imediato: os alunos sabem fazer o gesto. E como, naquele momento, o gesto está correto, tudo parece OK. Quando um aluno faz uma pergunta, visto que o formador não tem a informação que justifica o gesto, as respostas que ele pode dar são mais ou menos as mesmas: "é assim que a gente faz", "é o protocolo", "faz 10 anos que eu sou socorrista", "já vi muito mais casos do que vocë"... E em último caso, uma 10 flexões são o melhor remédio para esses alunos espertinhos que ficam fazendo perguntas...

A armadilha aparece quando as técnicas mudam. Pela fraqueza da organização de ensino, é o formador que fica na linha de frente, e portanto em risco, durante anos. Chegar um dia e dizer "não vamos mais colocar colar cervical" parece, na cabeça desse formador, com admitir diante de seus alunos que "faz dez anos quem eu conto besteiras para vocês". Nem pensar! Paradoxalmente, enquanto que ele deveria acompanhar a mudança e favorecê-la, o formador vai tornar-se o freio mais forte, por razões de auto-estima. Simplesmente porque ninguém nunca lhe disse que ele devia justificar as técnicas e que não lhe deram informações para isso. Ao contrário, o formador que atua num sistema de ensino que lhe fornece todo o conjunto de ferramentas pedagógicas, cursos de pedagogia adequados, reciclagem, etc. pode explicar e, principalmente, justificar cada gesto que ele ensina, pois o sistema lhe fornece informações e ferramentas para transmití-las. O formador não se coloca mais como aquele que "sabe tudo", e sim como aquele que transmite as informações claras e precisas vindas do sistema que lhe oferece toda uma estrutura de consulta, tira dúvidas, etc.
Enquanto o formador que não pode justificar vê a mudança como um perigo e demonstração de sua incompetência, o formador que atua num sistema organizado vê, ao contrário, a mudança como prova de que o sistema é sem parar em busca de melhoria.
Alguns talvez fiquem intrigados pelo fato de a DNF (Direção Nacional de Formação) da ANSB fornecer gratuitamente, aos seus formadores de socorrismo, manequins, desfibriladores, cenários pedagógicos, dezenas de pôsteres e dezenas de horas de curso de pedagogia. De fato, esse é o preço a pagar para que a transmissão de informação seja adequada e, principalmente, para que o sistema possa evoluir, tendo formadores que agem como motores da mudança, e não como freios.


Bibliografia

1- Emergency department evaluation and treatment of the neck and cervical spine injuries
William J. Frohna MD, FACEP - http://www.mnata.com/documents/AT_EMS_Toolkit/FoundationalInformation/Emergency_Department_Evaluation_and_Treatment.pdf
2 - KED e colar cervical na vítima consciente (Dez 2013) - https://www.facebook.com/notes/ansb-associac%CC%A7a%CC%83o-nacional-dos-sapadores-bombeiros/ked-e-colar-cervical-na-v%C3%ADtima-consciente/569854703109623
3 - Dr. Helge Asbjørnsen "Har noen behov for – eller nytte av – nakkekrage?" http://www.bestnet.no
4 - Neck collar used in treatment of victims of urban motorcycle accidents: over- or underprotection?
Hsing-Lin Lin , Wei-Che, Lee , Chao-Wen, Chen , Tsung-Ying, Lin , Yuan-Chia
The American Journal of Emergency Medicine – (Oct 2010).
Division of Trauma, Department of Surgery, Department of Emergency Medicine, Institute of Healthcare Administration, Kaohsiung Medical University, Kaohsiung 807, Taiwan.
5 - Hauswald M, Ong G, Tandberg D, et al: Out-of-hospital spinal immobilization: Its effect on neurologic injury. Acad Emerg Med 5:214-219, 1998
6 - Sahni R, Menegazzi JJ, Mosesso VN: Paramedic evaluation of clinical indicators of cervical spinal injury. Prehosp Emerg Care 1:16-18, 1997
7- Motion within the unstable cervical spine during patient maneuvering: the neck pivot-shift phenomenon. Lador R1, Ben-Galim P, Hipp JA. (Jan 2011) - http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21217496
8 - The effect of rigid cervical collars on internal jugular vein dimensions.
Stone MB1, Tubridy CM, Curran R.
9 - Effect of cervical hard collar on intracranial pressure after head injury.
Mobbs RJ1, Stoodley MA, Fuller J.
10 - The curse of the cervical collar - http://www.scancrit.com/2013/10/10/cervical-collar/
11 - http://www.emsworld.com/news/11355614/kansas-ems-system-changes-policy-on-backboards?utm_source=EMS+World+News+Recap&utm_medium=email&utm_campaign=CPS140315003

Outros documentos

A - "Spinal immobilization. Are we goind "over board"?" JEMS Mars 2013, Jim Morrissey, MA, EMT-P
B - Smith JP, Bodai BJ, Hill AS, Frey CF "Prehospital stabilization of critically injured patients: A failed concept" (in J Trauma 1985)
C - Haut ER, Kalish BT, Efron DT, et al. "Spine immobilization in penetrating trauma: More harm than good?" J Trauma. 2010;68(1):115–120; discussion 120–121.
D - Sabina Fattah, Guri R Ekås, Per Kristian Hyldmo, Torben Wisborg     "The lateral trauma position: What do we know about it and how do we use it? A cross-sectional survey of all Norwegian emergency medical services" (Scandinavian Journal of Trauma, Resuscitation and Emergency Medicine-2011)
E - Cervical Spine Motion During Extrication: A Pilot Study Jeffery S. Shafer, MD, EMTP and Rosanne S. Naunheim, MD  http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2691505/
F - Scoop and run to the trauma center or stay and play at the local hospital: hospital transfer's effect on mortality. Nirula R, Maier R, Moore E, Sperry J, Gentilello L.
G - Kwan I, Bunn F. Effects of prehospital spinal immobilization: a systematic review of randomized trials on healthy subjects. Prehosp Disaster Med. 2005;20(1):47–53.
H - Progress in prehospital spinal injury management (jan. 2014) - http://www.scancrit.com/2014/01/29/spinal/
I- Pre-hospital spinal immobilisation: an initial consensus statement.
Connor D1, Greaves I, Porter K, Bloch M; consensus group, Faculty of Pre-Hospital Care. - http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24232011 (Dez. 2013)
J - Why Do We Put Cervical Collars On Conscious Trauma Patients? Jonathan Benger & Julian Blackham / Scandinavian Journal of Trauma, Resuscitation and Emergency Medicine 2009 disponible sur http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2751736/
K - Main PW, Lovell ME: A review of 7 support surfaces with emphasis on their protection of the spinally injured. J Accid Emerg Med 1996.
L - Kosiak M: Etiology of decubitus ulcers. Arch Phys Med Rehabil 1961
M - http://www.spinalcordinjuryzone.com/info/7575/exacerbating-cervical-spine-injury-by-applying-a-hard-collar
N - Solving the problem of pressure ulcers resulting from cervical collars.  - http://europepmc.org/abstract/MED/8826136/
O - Factors predicting cervical collar-related decubitus ulceration in major trauma patients.  - http://europepmc.org/abstract/MED/17304132
P - Efficacy of Cervical Spine Immobilization Methods - PODOLSKY, SHERMAN M.D.; BARAFF, LARRY J. M.D.; SIMON, ROBERT R. M.D.; HOFFMAN, JEROME R. M.D.; LARMON, BAXTER B.S.; ABLON, WENDY
Q - Experimental cervical spine injury model: Evaluation of airway management and splinting techniques - MD, FACS Charles Aprahamian, MD Bruce M Thompson, MD William A Finger, MD, FACS Joseph C Darinz
R - A Multidisciplinary Approach to Occipital Pressure Ulcers Related to Cervical Collars - http://journals.lww.com/jncqjournal/Abstract/1997/10000/A_Multidisciplinary_Approach_to_Occipital_Pressure.8.aspx
S - Complication of hard cervical collars in multi-trauma patients -S.C.C. Liew, D.A. Hill (Australian and New Zealand Journal of Surgery Volume 64, Issue 2, pages 139–140, February 1994)

Por que "Sapadores-Bombeiros"?

O excelente blog de Leonardo Aparecido Baldo Ferraz, disponível em
http://diariobombeirocivil.blogspot.com.br/ aponta, já há algum tempo, as contradições da atividade dos Bombeiros Civis do Brasil. De outro lado, a ANSB é muito questionada por adotar o termo de Sapador-Bombeiro ao invés e no lugar de Bombeiro, reforçando a ideia de que várias pessoas utilizam as mesmas palavras para falar, no fim das contas, de coisas muito diferentes.
Assim, um "bombeiro civil" do Brasil exerce uma atividade que não tem nada a ver com a atividade de um "bombeiro não militar" Francês. E nos EUA, ao contrário do que dizem alguns, não existe "bombeiro civil" como conhecemos no Brasil. Ou seja, não basta utilizar uma palavra, é preciso saber a quê ela corresponde.


A França, único igual ao Brasil

A França é o único país no mundo onde encontramos as mesmas profissões de socorro em incêndio que no Brasil. Estudando o seu funcionamento, é possível entender a confusão que existe aqui, e os problemas que ela cria.

Em Paris e Marselha

Imagine que você está em Paris e testemunha um incêndio. Um veículo de combate a incêndio vai chegar. Esse veículo é vermelho, com luzes rotativas azuis e uma sirene característica. Homens vão descer do veículo. Eles estão de uniforme, têm graus hierárquicos e um deles dá ordens. Eles têm equipamento de proteção respiratória, capacetes, mangueiras... e vão apagar o fogo. São "Sapeurs-Pompiers" e a população os conhece por esse nome. Como nós estamos em Paris, esses "Sapeurs-Pompiers" são militares. Eles dependem do ministério da defesa, que os coloca à disposição da cidade de Paris. Na cidade de Marselha, os Sapeurs-Pompiers também são militares. Em Marselha, eles dependem da Marinha.
No vídeo, temos uma saída de vários veículos, inclusive uma escada, dos Sapeurs-Pompiers de Paris http://www.youtube.com/watch?v=9TDXBeFAM4s
  1. Os Franceses chamam-nos de "Sapeurs-Pompiers" sem jamais acrescentar a denominação de "militares"
  2. Os Sapeurs-Pompiers de Paris ou de Marselha jamais se apresentam como militares
  3. Ao todo, os Sapeurs-Pompiers militares Franceses são cerca de 15.000

No restante do território Francês
Imagine agora que você está na França, mas fora de Paris e de Marselha, numa cidade grande, e você testemunha um incêndio. Um veículo de combate a incêndio vai chegar. Esse veículo é vermelho, com luzes rotativas azuis e uma sirene característica. Homens vão descer do veículo. Eles estão de uniforme, têm graus hierárquicos e um deles dá ordens. Eles têm equipamento de proteção respiratória, capacetes, mangueiras... e vão apagar o fogo. São "Sapeurs-Pompiers" e a população os conhece por esse nome.Como você já deve ter percebido, a cena, fora de Paris ou de Marselha, é 100% igual à que você viu naquelas cidades. A única diferença: esses Sapeurs-Pompiers dependem do Ministério do Interior (mais ou menos equivalente do Ministério da Justiça, no Brasil). Não são militares.
  1. Eles atuam a partir de quartéis
  2. Não tem NENHUMA subordinação hierárquica com os militares
  3. A população os conhece como "Sapeurs-Pompiers"
  4. Eles jamais se apresentam como "não militares" ou "civis". Apenas como Sapeurs-Pompiers.

Nessa equipe de Sapeurs-Pompiers não militares, há profissionais e voluntários. É totalmente impossível diferenciá-los. Os profissionais fazem essa atividade em tempo integral e recebem um salário. Os voluntários fazem esta atividade em tempo parcial, além de ter uma outra profissão. Eles recebem ajuda de custo em função do número e duração dos atendimentos. No vídeo, temos uma saída do caminhão de incêndio e veículo leve para um socorro de capotamento, com profissionais e voluntários em Valenciennes
http://www.youtube.com/watch?v=_hmY_FLl7fw

A relação entre o número de voluntários e de profissionais depende do tamanho da cidade. De fato, a superfície que uma unidade operacional pode cobrir em tempo aceitável é sempre muito pequena (na França, entre o momento em que você chama o socorro e o momento em que os Sapeurs-Pompiers chegam, passam no máximo 15 a 20 minutos.) Quando a densidade de população é alta na zona coberta por um serviço de socorro, o número de atendimentos é logicamente muito alto. Neste caso, pagar Sapeurs-Pompiers em tempo integral é justificado. Mas quando a população é pequena, o número de atendimentos é pequeno, e pagar pessoas em tempo integral para não fazer grande coisa é inaceitável economicamente. Algumas unidades de Sapeurs-Pompiers defendem territórios ocupados por menos de 2.000 pessoas, com a mesma qualidade que nas grandes cidades, mas exclusivamente com voluntários. Há graduados e oficiais (cabos, sargentos, tenentes, capitães, majores, etc.) não militares, tanto profissionais como voluntários.
Em 100% do território Francês, os Sapeurs-Pompiers chegam para socorrer você em no máximo 20 minutos. Muito longe do que existe hoje no Brasil.

No França, os Sapeurs-Pompiers não militares são cerca de 250.000. E dentre eles, cerca de 80% são voluntários. No vídeo, temos uma saída do veículo do chefe, caminhão de combate a incêndio, caminhão de incêndio florestal e da ambulância numa unidade operacional totalmente de voluntários, en Vanault.
http://www.youtube.com/watch?v=XxJaheeR7T8

Anedota

Para os Franceses, o termo Sapeur-Pompier designa uma atividade realizada a partir de um quartel. A população não sabe que há Militares e Não Militares. Há alguns anos, houve manifestações de Sapeurs-Pompiers em Paris. Os Sapeurs-Pompiers que faziam manifestação não eram militares (logicamente, pois os militares não têm direito de greve). O comandante dos Sapeurs-Pompiers de Paris, temendo a confusão, mandou colocar outdoors na cidade para dizer "Não estamos em greve, somos militares!" A necessidade de tais placas mostra que a população nem sabe que uns são militares, outros não.

Nas lojas

Imagine agora que nós continuamos na França, em qualquer cidade, e que estamos em uma grande loja, um hospital ou um grande museu. Começa um incêndio. Em poucos segundos, aparecem pessoas uniformizadas. Não é o mesmo uniforme dos Sapadores-Bombeiros e é óbvio que essas pessoas já estavam no local quando os incêndio começou, porque chegam em poucos segundos. São profissionais do incêndio e, principalmente, da evacuação. Em poucos instantes, seu perfeito domínio do local lhes permite evacuar alguns milhares de pessoas que estavam no centro comercial. Se eles podem combater o fogo, eles combatem, mas não é este seu objetivo essencial: sua função primeira é salvar o máximo de pessoas. Você vai ver que eles evacuam os clientes e acolhem os Sapeurs-Pompiers que eles chamaram. Você vai vê-los conversar com os Sapeurs-Pompiers, dizer onde estão os riscos temporários, os hidrantes, as colunas para pressurização, etc... Essas pessoas não são Sapeurs-Pompiers. Na França, eles são chamados de SSIAP (Serviço de Segurança contra Incêndio e Ajuda às Pessoas). No Brasil, são nossos famosos "Bombeiros Civis".

Resumindo

Na França, há Sapeurs-Pompiers militares somente em Paris e Marselha. Eles são equivalentes aos Bombeiros Militares do Brasil.
Na França, há Sapeurs-Pompiers voluntários em todo o restante do território nacional. Eles são o equivalente dos Bombeiros Voluntários de Santa Catarina ou do Rio Grande do Sul.
Na França, há Sapeurs-Pompiers profissionais e que não são militares. Não há equivalentes no Brasil.
Na França, existem agentes de segurança contra incêndio em todos os estabelecimentos que recebem um grande número de pessoas. São os SSIAP, equivalentes dos Bombeiros Civis do Brasil.
A partir daí, vemos bem onde está a confusão: os Bombeiros Militares, ao chamar-se "militares", deixaram espaço livre para o nome de "Bombeiros Civis".
Infelizmente, este nome foi adotado por uma profissão que não atua a partir de um quartel. Assim, duas profissões totalmente distintas têm o mesmo nome. A população fica sem entender, os políticos também, uns querem controlar os outros, e enquanto isso a população morre e ninguém faz nada...



Utilizar o nome de Bombeiro tanto para pessoas que cuidam da segurança do shopping quanto para as que atuam a partir de um quartel é misturar duas atividades diferentes. Os "Bombeiros Civis"/SSIAP são profissionais da evacuação, capazes de fazer 2.000 pessoas sair de um shopping em minutos. Os "bombeiros de quartel"/Sapeurs-Pompiers vão entrar no shopping com máscara respiratória para atravessar a fumaça e procurar duas pessoas que não foram evacuadas e estão encurraladas nos banheiros.
Se uma dessas duas profissões tentar fazer o trabalho da outra, o resultado será ruim. Mais pessoas vão morrer nos incêndios, e haverá mais perdas materiais também.

Confusão entre os Bombeiros Civis

O pior é que esta confusão existe até entre os Bombeiros Civis do Brasil. Logicamente, se nós respeitamos a Lei, temos que admitir a existência dos Bombeiros Civis como profissionais da prevenção e da evacuação, que salvam vidas por meio da prevenção e da evacuação. Mas não pode existir um Corpo ou um quartel de Bombeiros Civis. Para um Francês, isso seria como imaginar um "quartel de SSIAP", o que é ridículo. Um quartel de prevenção e evacuação! Mas nós vemos pessoas, conscientes da falta de socorro nas suas cidades, que querem ajudar mas não sabem como fazer. Sem conhecer as diferenças entre as atividades, eles são presa fácil para escolas de bombeiros civis que os fazem sonhar com o salvamento de loiras bonitas em incêndios horrorosos, e dão cursos de má qualidade ou, no mínimo, inadequados para uma atividade em quartel.

Quem certifica quem?

Quanto a formação e certificação, as coisas são perfeitamente claras: tudo depende do território. Os Sapeurs-Pompiers militares (Paris e Marselha) e os não militares (todo o restante da França) agem em territórios vizinhos, mas que não se sobrepõem. Os militares não dão ordens aos não militares, os não militares tampouco comandam os militares. E os militares entre eles também fazem essa separação: os de Paris não comandam os de Marselha. Fácil entender, já que se comparamos com o Brasil, os Bombeiros Militares de São Paulo não comandam os do Distrito Federal, nem vice-versa. Cada um fica no território que ele protege.
Quanto aos SSIAP, eles são certificados pelos Sapeurs-Pompiers do território onde eles atuam. Um SSIAP parisiense é validado pelos oficiais da Brigada de Sapeurs-Pompiers de Paris (militares), um SSIAP de uma cidade como Lyon é validado pelos oficiais Sapeurs-Pompiers da cidade de Lyon (ou seja, não militares)

Por que Sapadores-Bombeiros

Agora, fica bem simples entender porque a ANSB escolheu o termo de Sapadores-Bombeiros para nomear seu pessoal: Como a ANSB trabalha na implantação de unidades de socorro, o pessoal deveria ser chamado de "Bombeiro". Mas como o pessoal não é militar, seria preciso usar o nome de Bombeiro Civil: quem não é militar é civil, claro. E nós caímos de novo na confusão! Por isso, decidimos utilizar o antigo nome dos serviços de socorro (Seção de Sapadores Bombeiros, em Sergipe, Paraná e outros Estados). Assim, os Sapadores-Bombeiros são "de quartel" e herdeiros da tradição dos Sapadores, pessoal que utiliza ferramentas de sapa (pás, picaretas...) para construir pontes e reforçar casas parcialmente destruídas por incêndios.

Alguns casos específicos

Como o nome designa uma atividade (realizada a partir de um quartel), existem na França outros tipos de Sapeurs-Pompiers, que encontramos também no Brasil. Existem Sapeurs-Pompiers militares que atuam dentro de unidades das Forças Armadas. Por exemplo, para proteger um terreno de exercício militar, como o campo de tiros de Canjuers, ou bases de mísseis). Também existem Sapeurs-Pompiers privados que defendem grandes usinas. Mas eles sempre possuem caminhões de incêndio e têm (no conjunto) todos o mesmo uniforme. Além disso, quase sempre as unidades de Sapeurs-Pompiers privados têm acordo com as cidades ao redor, e saem da usina para assumir o socorro da população.

Algumas mentiras

Vejamos alguns argumentos ouvidos por aí...

Nos Estados Unidos, os bombeiros são bombeiros civis. Verdade, no sentido de que não são militares. Mentira, no sentido de que sua atividade não é a mesma dos bombeiros civis Brasileiros. Aliás, a profissão equivalente aos bombeiros civis nos Estados Unidos... não existe! Nos shoppings, não há um serviço específico de segurança contra incêndio. São os empregados das lojas que passam por uma formação básica de combate a incêndios.

Os Bombeiros Civis têm a mesma formação dos Bombeiros Militares. Está é sem dúvida a mentira mais ridícula e absurda. A atividade operacional não tem nada a ver, a formação também não. Não é porque várias pessoas trabalham na área de incêndio que todos têm a mesma formação. Um dentista trabalha na área de saúde, e um cardiologista também. Mas eles não têm a mesma formação.

Na Europa, quase todos os bombeiros são bombeiros civis. De novo, é verdade se você considera o fato de ser civil ou militar. Assim, na Alemanha, na Itália e na Bélgica, não há Bombeiros Militares. Mas é mentira, se você considera a atividade. Os "Bombeiros Civis" Franceses chamam-se de SSIAP, e não de Sapeurs-Pompiers.

Todos os municípios do Brasil deveriam ter Bombeiros Civis, então há um enorme mercado de trabalho. Esse sim é um delírio total. Primeiro, porque a formação de Bombeiro Civil não tem nada a ver com a de um "bombeiro de quartel" e, além do mais, o custo salarial seria totalmente inaceitável. Ao contrário do que alguns querem fazer crer, não há mercado de trabalho neste setor.

Com mais 190.000 Bombeiros daria para proteger todo o Brasil. Com certeza não! Na França são necessários 270.000 Sapeurs-Pompiers para proteger 60 milhões de Franceses num território que é 1/12 do Brasil. Como então 190.000 seriam suficientes para o nosso país?

Poderíamos proteger todo o Brasil com Bombeiros Militares, se o governo quisesse. Aqui, mais uma mentira, ou uma incapacidade de fazer contas de multiplicação. Para o número de bombeiros necessários, somente o custo salarial corresponderia à parcela da agricultura no PIB Brasileiro!...

É preciso ter quartéis mistos, com militares comandando os civis. A experiência já foi tentada. Ela tem apenas dois resultados: ou um tipo de campo de férias onde alguns adolescentes espinhentos vêm fazer educação física, ou um quartel de muito baixa qualidade, com 3 ou 4 pessoas sem esperança de fazer qualquer coisa interessante. O pessoal civil intelectualmente apto a comandar, a organizar, etc. não aguenta ser comandado por militares e tratado como um "bombeiro de 2a categoria", na melhor das hipóteses.

Conclusão

Os Sapadores-Bombeiros são "bombeiros de quartel". Exclusivamente de quartel. Os Sapadores-Bombeiros não reconhecem as formações de Bombeiros Civis porque elas não são adaptadas à atividade das unidades operacionais.

Num próximo artigo, vamos calcular a necessidade do Brasil em termos de socorro. Veremos que o número de Sapadores-Bombeiros que falta é bem maior do que 190.000...

Um vídeo interessante: Feito pelo Ministério do Interior, ele chama os jovens para juntar-se aos 190.000 Sapeurs-Pompiers Voluntários que protegem a população Francesa.
http://www.dailymotion.com/video/xjgcxn_les-sapeurs-pompiers-volontaires-volonte-de-faire_news