Nos
cursos de socorrismo cidadão, os formadores Sapadores-Bombeiros às
vezes têm alunos que são enfermeiros ou médicos, que se espantam do fato
de não tomarmos o pulso de uma vítima para saber se ela está em parada
cardíaca.
Os médicos que validam os cursos de formadores da ANSB também às vezes fazem esta observação antes de nós darmos o motivo.
Para entender por que não tomamos o pulso, primeiro é preciso colocar as coisas no contexto. O socorrismo cidadão é parte do que chamamos "corrente do socorro". Esta corrente é o encadeamento de ações, feitas por pessoas com competências diversas. Cada elemento da corrente do socorro tem sua importância, seus limites e suas condições de existência. O tamanho do Brasil e a repartição muito desigual das estruturas de socorro faz que demore às vezes 30, 40 minutos, ou até algumas horas para que o socorro chegue à vítima. Ora, o tempo é o elemento mais crítico. Por isso, não é tendo uns poucos super especialistas da massagem cardíaca que vamos conseguir salvar mais pessoas. Pois mesmo se o melhor cardiologista do mundo for brasileiro, não vai adiantar nada se ele não estiver por perto quando você tiver um ataque cardíaco. Por isso, é preciso formar o maior número possível de pessoas para fazer gestos simples.
Este é o objetivo do curso de Socorrismo Cidadão dado pelos formadores da ANSB, curso que se resume simplesmente em: "socorrer, mesmo sozinho e sem equipamento".
É exatamente neste curso, dado a qualquer pessoa acima de 10 anos, sem nenhum conhecimento especial, que não se ensina mais a tomar o pulso. Por outro lado, para o exercício de suas missões os Sapadores-Bombeiros devem possuir a formação PSE (Primeiros Socorros em Equipe), e aí sim, aprendem a tomar o pulso.
Antigamente, a gente tomava o pulso...
Desde Janeiro de 2001, o GNR AFPS (Guia Nacional de Referência sobre os Primeiros Socorros Cidadãos) da França não indicava mais que se tomasse o pulso.Mas até aquele momento, tomar o pulso era algo ensinado ao grande público. Esse ensino era baseado na ideia de que é perigoso massagear um coração que está batendo. Veja, isto é falso. O coração é um músculo, e comprimí-lo não vai impedir seu funcionamento.
Isso também estava ligado ao fato que o coração pode continuar a bater mesmo se a vítima não respira. Mas acontece que, mesmo se isso é verdade de um ponto de vista médico, não é uma situação duradoura: o coração logo vai parar também. Ligado ao ponto anterior, essa suposição obrigava a verificar bem se havia ou não um pulso, para evitar o risco de massagear um coração que ainda batia.
O aluno ficava numa situação delicada, pois lhe pediam para tomar o pulso colocando-o diante da situação apresentada como perigosa... Alguns formadores chegavam a dizer que você podia matar uma pessoa se massageasse o coração funcionando!!
O golpe de misericórdia começou com o estudo de M. Liberman, A. Lavoie, D. Mulder, J. Sampalis, em setembro de 1999, intitulado "Cardiopulmonary resuscitation: errors made by pre-hospital emergency medical personnel". Nesse estudo, pessoas trabalhando no apoio médico de emergência receberam vítimas com ou sem pulso, com o objetivo de definir se tomar o pulso era realmente confiável. Sabendo que os ensaios foram feitos com socorristas experientes, era de se esperar um bom resultado. Na verdade, foi o inverso que aconteceu, e os estudos seguintes confirmaram:
Em mais da metade das vítimas com pulso, ele não foi detectado. O que quer dizer que os socorristas continuaram a massagear um "coração batendo", prática que era considerada perigosa.
Mas na metade das vítimas sem pulso, o pulso foi encontrado! Isso pode parecer surpreendente, mas todos os socorristas com um pouco de experiência sabem disso: nem sempre nós tomamos o pulso da vítima. Às vezes, nós tomamos o nosso próprio. Isso é bastante fácil de verificar: faça algumas flexões para aumentar seu ritmo cardíaco, em seguida aperte o seu polegar ou os seus dedos contra a parede. Você vai perceber um pulso. O seu, evidentemente, porque a parede não o tem! Ora, nesse caso, o socorrista que acha que está sentindo o pulso da vítima vai parar a massagem cardíaca que é necessária para a sobrevivência dela.
Assim, as autoridades chegaram em conjunto a uma conclusão:
- se você massageia um coração que bate, não tem problema
- se você NÃO massageia um coração em parada, é um grande problema
- tomar o pulso não é um procedimento confiável

Foram estes elementos que levaram à conclusão de que tomar o pulso não deveria mais ser ensinado ao grande público. Principalmente porque sua falta de confiabilidade arriscava levar o socorrista a parar sua ação quando ela seria tão necessária para a sobrevivência da vítima.
De fato, numa pessoa que não respira, tomar o pulso não é pertinente. Os outros sinais (falta de respiração, falta de reação às insuflações, etc...) são o bastante para determinar a situação e portanto a decidir se a vítima "respira" ou "não respira", o que permite ao socorrista optar pela colocação em posição lateral de segurança (vítima inconsciente que respira) ou pelos ciclos de compressões-insuflações (vítima inconsciente que não respira)
Por isso é que a solução ensinada nos cursos de socorrismo cidadão é simplesmente, depois de inclinar a cabeça da vítima para trás (Liberação das Vias Aéreas), que o socorrista aproxime a cabeça do rosto da vítima para sentir uma eventual respiração, ouvi-la e ver seu movimento, tudo em no máximo 10 segundos. Passado esse tempo, sem perceber-se nenhum sinal, a vítima é considerada "inconsciente que não respira" e a massagem cardíaca deve começar.
O socorrismo evolui, sempre. Os formadores de socorristo cidadão da ANSB passam por reciclagem anual exatamente por esse motivo...